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Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

14/09/17

Um Ano Roubado, um Tesouro Encontrado (2)

(...)

Pretendíamos incluir um vídeo a simular um telejornal, mas se há coisa com a qual nenhum de nós se entende muito bem é a informática, pelo que, para nossa desilusão, tivemos de representar os jornalistas fisicamente. Ao contrário do que aconteceu nas peças anteriores, houve um entrave na fluidez, visto que não tínhamos memorizado bem uma das partes do guião. Felizmente, a nossa professora era compreensiva, impedindo assim que esse deslize nos afectasse. 

Desta vez tivemos relativamente pouco tempo para ensaiar, o que se relacionou com a combinação de diversos factores: a extensão do guião, dado que a terceira peça era significativamente mais curta que as outras; a concepção da peruca, a gravação do vídeo que nunca chegámos a mostrar e, por último, mas não menos importante - foi, aliás, na minha opinião, um impeditivo espectacular - a minha ida a Itália. 

Ofereceram-me a oportunidade magnífica e inesquecível de visitar Itália com todas as despesas pesadas pagas. Tudo o que tive de fazer foi participar num concurso de contos/poesia/fotografia. Podia escolher todas as categorias, contudo, optei por apostar apenas na poesia. Enviei dois poemas via internet e, alguns meses depois, recebi a maravilhosa notícia de que podia ir a Itália para, possivelmente, receber um prémio. 

Quando me inscrevi, pensei que me fossem comunicar os resultados por correio electrónico, portanto, assim que soube a aventura que me esperava, fiquei uns dez minutos a saltar pela casa. Parti com as viagens de avião, a comida e o alojamento assegurados. A única parte que não cabia à organização do projecto Marco & Alberto Ippolito pagar era a deslocação até ao país hospedeiro. 

Eu bebi cada momento como se fosse o último. Para quem adora a diversidade cultural e linguística de paixão como eu, estar reunido na mesma mesa com pessoas de tantas nacionalidades diferentes - sim, porque o organizador não queria que houvesse muitas pessoas da mesma nação sentadas juntas - é fenomenal, é soberbo, foi perceber um troço da minha pequenez em paralelo com o meu enorme fascínio que nunca pára de crescer. 

Na mesma mesa ouviam-se quatro ou cinco idiomas diferentes: alemão, sueco, italiano, grego, português, entre outros. 

Adorei conhecer tantas pessoas interessantes com algumas das quais fiz amizade. Éramos parecidos em diversos aspectos, facto que permitiu uma sensação de união e uma convivência constantemente alegre e fluída. Quase todos eles eram pacatos e transmitiam imensa tranquilidade, como se não fosse a primeira vez que nos encontrávamos. A acrescentar a isto, tínhamos sempre a agenda preenchida com actividades, o que reforçou o nosso convívio e fez com que, provalvelmente, tenha sido a semana em que menos dormi até agora. 

A única pessoa com quem ainda mantenho um contacto razoavelmente frequente é o meu ex-colega de quarto alemão. Em todos os quartos havia três pessoas de nacionalidades diferentes de modo a promover a aprendizagem e a partilha cultural. No meu estavam agrupados um português, um italiano e um alemão. 

Seria óptimo se os cerca de quarenta participantes se reunissem de novo, visto que teria adorado desenvolver algumas das amizades que criei. Já pensámos em fazê-lo ao ir mudando de país hospedeiro, mas claro, há entraves de tempo e de dinheiro. Creio que teríamos dado uma excelente «turma», caso tivéssemos tido uma oportunidade de interagir mais duradoura, contudo, tal não seria possível durante um período muito longo, pois convém não esquecer que não éramos nós que tratávamos das despesas. 

Enfim, passada uma semana deliciosamente relaxante, regressei a Portugal de coração cheio, com a imaginação em brasa e, como bónus, com um pequeno prémio. Era altura de voltar aos ensaios... o actor dentro de mim estava em pulgas! Para nosso espanto, obtivemos uma nota igual à da peça anterior. Pensámos que havíamos descido devido à menor qualidade da representação e, consequentemente, do uso da língua inglesa. 

Para mal dos pecados de todos os finalistas, por muito que desejassem, ainda não era tempo de descansar, porque a época de exames havia chegado. Os nervos vieram-me à flor da pele, no entanto, iam sendo alternadamente vencidos pela determinação. Recusava-me veemente a perder o rodeo outra vez e nada me tirava da cabeça que havia de agarrar o touro pelos cornos e ingressar, por fim, no Ensino Superior... pronto, não era 100% assim, pois eu sentia-me bem intimidado. 

Começaram a surgir-me na cabeça aquelas armadilhas que a mente humana tanto gosta de preparar: e se eu não conseguir? Eu já falhei uma vez e nada me garante que não voltará a acontecer. As minhas notas a Português neste ano pioraram bastante. Tive de me mentalizar de que precisava de encontrar A Força, dado que tinha o curso de Tradução na mira. Como nenhum comboio espera, obriguei-me a garantir o meu lugar... e consegui. 

No ano lectivo de 2014/2015 tinha começado bem e acabado mal, mas no de 2015/2016 havia começado mal e acabado bem, o que prova que o esforço vale sem dúvida a pena e que qualquer sonho é possível. Aproveitei também para fazer o exame de Inglês, tendo em conta que o de História do outro ano havia sido catastrófico. Também me saí relativamente bem neste, o que, somado a tudo o resto dos dois anos, me permitiu subir satisfatoriamente a minha média baixa. Logrei ultrapassar o último aluno de Tradução aceite no ano anterior, feito que não teria alcançado, caso não tivesse agarrado no enorme leque de possibilidades que esta segunda oportunidade me proporcionou. 

A cada novo acontecimento, eu recolhia outra cor para o meu crescimento pessoal e aumentava a diversidade de prismas através dos quais contemplava a vida. Da mesma forma que fui mais bem preparado para a faculdade, foi também graças ao 13º ano que pude divertir-me e desafiar-me como nunca ao lado de um dos meus melhores amigos; se tivesse despachado logo o Secundário, não teria ido a Itália, que sempre tinha sonhado visitar. Isto entre outras aventuras incríveis! 

Todo este texto é um relato da minha experiência no ano lectivo de 2015/2016, desde os episódios aparentemente mais insignificante aos sucedidos mais marcantes. Eu fiz questão de registar tudo, pois posso vir a precisar de me inspirar novamente um dia.

tu! Sim, tu, jovem leitor/a, que também se farta de andar às aranhas, este texto também é para ti. Eu sei que as minhas experiências não te dizem muito, porém, estou a partilhá-las contigo para te mostrar que podes mudar a tua vida e a forma como encaras essa coisa chata, que é a rotina. Além disso, a seca piora quando temos de fazer algo de que não gostamos ou detestamos mesmo, e que nem sequer escolhemos fazer, como é o caso de frequentarmos a escola. Contudo, embora estejas certo/a ao dizer que não te identificas com o que te ensinam ou que aquilo te dá vontade de adormecer, a verdade é que, enquanto a nossa geração não tomar as rédeas do mundo, não podemos mudar tantas coisas quanto desejaríamos. 

Eu acredito que uma revolução já está a despertar em diversos aspectos da sociedade, mas os seus agentes ainda são relativamente verdes para pôr qualquer ideia dessa dimensão em prática. Assim sendo, o melhor a fazer é ir mostrando aos poucos a vontade de mudar. Algo simples como uma peça de teatro, por exemplo, ou sugerir eventos à Associação de Estudantes. Usar a tua criatividade diariamente para pequenas coisas ou simplesmente admirar o que te rodeia. Irás sempre descobrir algo em que nunca tinhas reparado. 

A infinita lista de escolhas está nas tuas mãos! Serve-te da tua criatividade, que pode ser a solução para um sem-fim de problemas. Ah, mas eu não sou criativo/a. És sim. Desenvolve essa capacidade e ficarás surpreendido/a com as tuas façanhas. Há pessoas mais propensas a ter essa característica, porque ninguém é um produto de fábrica, no entanto, toda a gente a possui e tu não és, sem sombra de dúvida, uma excepção. 

Quando começaste a aprender a escrever, as letras saíam-te logo perfeitas? Quando começaste a andar de bicicleta, dominavas o teu equilíbrio em pleno? Com a criatividade, assim como tudo o resto, acontece o mesmo: primeiro obténs maus resultados, mas depois evoluis. Digo-te que é diversão na certa. Através da criatividade, mais do que um excelente passatempo, também podes descobrir a tua vocação profissional. Quem sabe? 

Se ainda não descobriste que caminho queres seguir apesar de já estares no fim do Secundário, o meu melhor conselho é: se precisares, pára um ano ou mais e experimenta! Desenha, escreve, esculpe ou, se preferires uma área mais lógica, estuda física, química, sociologia... tudo o que te ocorrer é válido, mas faz alguma coisa. Viajar também é óptimo para abrir horizontes. É, inclusive, na minha óptica, uma das melhores opções. 

Faz-te um favor e não desistas de te esforçar na escolaridade obrigatória. Porra! Olha outro a tocar o disco riscado! Eu sei, eu sei, mas lê até ao fim. Por muito secante que seja, por muita vontade que tenhas de agarrar nos teus pertences e sair porta fora do nada, não desistas nem te esforces apenas no terceiro período. Falo por experiência. 

Eu nunca fui um mau aluno, mas também não posso dizer que sou propriamente brilhante. Sempre procurei não perturbar as aulas, contudo, possuo desde que me lembro uma tendência para me distrair um pouco acentuada e, no oitavo, bem como no nono anos, deixei-me levar por isso. 

Considerava muito mais cansativa a luta interior contra abandonar a Terra do que o conteúdo das aulas em si. Assim sendo, passava grande parte do tempo a fazer bonecada nos cadernos e cheguei até a inventar um alfabeto do qual ainda detenho o registo. Houve uma fase em que eu pensava que a minha paixão era desenhar. Já tinha descoberto a escrita, porém, andava numa espécie de corda bamba e as minhas actividades predilectas oscilavam (factos que podem ler aqui). 

Durante um bom espaço de tempo, eu gostava mesmo era de desenhar. O único problema era que não tinha jeito nenhum, por isso, contentava-me maioritariamente com os tradicionais homens-palito, os chamados stick figures, enquanto ia tentanto melhorar através da visualização de vídeos na internet. Posto isto, rabiscava e às vezes lá olhava para o/a professor/a para ouvir o que ensinava, mas ter-me-ia sido útil não me entusiasmar tanto e estar 60% da aula concentrado nos desenhos ao invés do/a professor/a. 

Resultado: quando chegou a altura da derradeira prova, eu vi-me aflito, pelo que, durante as duas semanas antes dos exames, estudei exaustivamente (para o de Português) e fartei-me de pedir a Deus que me deixasse passar. Consegui-o e o meu coração suspirou de alívio quando soube, porém, o alívio podia ter-me acompanhado no exame se tivesse tido dois dedos de testa. 

Portanto, não te desleixes ou a recuperação vai sugar-te todas as forças, embora te tenhas divertido quase o ano inteiro. Como te sugeri, tenta tornar a rotina um pouco mais agradável. 

Alegra-me imenso que não tenha publicado este texto há um ano como tinha planeado, dado que, ao ir para a faculdade, mudei muito e tive a oportunidade de melhorar o conteúdo que aqui escrevi. Descobri e ultrapassei alguns limites que não julgava passíveis de vencer, conheci mais de mim mesmo e, sobretudo, aprendi que, não importa o que se faça, ter-se-á sempre chatices. Eu tinha uma ideia bastante utópica do futuro que me esperava: nunca ia apanhar secas, nunca ia fartar-me daquilo... eu devia ter pensado duas vezes antes de tirar estas conclusões. 

Há alturas em que não nos apetece ou que só pedimos aos nossos botões que o tempo acelere, não só para determinada aula acabar, mas também porque as férias podem estar perto e nós já estamos nas últimas. Com isto não quero dizer que deves rejeitar estudar na faculdade ou qualquer outra actividade que te faça feliz, mas tem em mente que vais sempre passar por maus momentos, pois são eles que te obrigam a procurar respostas para te superares a ti próprio/a. 

Aliás, já que estamos a tocar no assunto, eu recomendo vivamente que te candidates ao Ensino Superior, porque é uma vivência incrível! Conhecerás pessoas parecidíssimas contigo, estudarás o que gostas, sentindo que vale a pena aprender aquilo, acordas todos os dias mais feliz (eu cá acordo) e tudo é diferente, visto que não existe o rótulo obrigatório. 

Precisas de te esfalfar a estudar? Sim. Quase não vives para outra coisa? Sim, porém, é uma experiência que fica para a vida

Vá! Concretiza-te! De que é que estás à espera para florescer?!

 

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