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Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

14/09/17

Um Ano Roubado, um Tesouro Encontrado (1)

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Uma das desfeitas mais frustrantes e ingratas da vida é ver os nossos objectivos irem por água abaixo depois de termos dado o litro. Era nisto mesmo que eu não queria acreditar em Junho de 2015 quando vi uma negativa a esfregar-me na cara que não podia ir para a faculdade. Um 9... no exame de Português... a disciplina decisiva do meu destino naquela altura. 

Eu demorei o dia inteiro a cair em mim. Como é que depois de um ano a esfalfar-me todos os dias, a insistir na determinação como se respira oxigénio e, a tirar notas relativamente boas, tinha tido o diabo de um 9?! Estava tão perto, bastava ter subido um patamar. Os meus padrões a Português nunca haviam sido muito elevados - não necessariamente negativos - mas naquele tempo esmerei-me, subindo, de forma satisfatória, a média dos testes. 

Apostei na segunda fase e correu pior ainda, pois desci um valor. Em suma, constatei que após muito esforço árduo e férias de Verão mal aproveitadas, me vi obrigado pelos meus princípios a voltar ao Secundário. Sim, porque tecnicamente, o 12º ano estava terminado, foram só o raio dos exames que me barraram. Podia perfeitamente esquecer aquilo e procurar um emprego, mas o que eu queria mesmo era ser tradutor. 

Assim sendo, respirei fundo para enfrentar a burocracia com filas intermináveis à minha espera e, finalmente, logrei pedir permissão à escola para me deixar estudar lá mais um ano. Devo admitir que, embora tentasse ser optimista e encarar a situação como mais um dos muitos desafios da vida, não conseguia fazê-lo a 100%. De certo modo, estava profundamente triste comigo próprio. 

No entanto, não podia estar mais enganado, aquilo foi tudo menos uma perda, senão um bónus que eu não teria colhido caso houvesse ido logo para a faculdade ou optado por trabalhar. O meu primeiro golpe de sorte foi o privilégio de escolher a turma na qual gostava de ser inserido. Isto veio acompanhado de frequentar as aulas de Inglês de forma a enriquecer o meu currículo, disciplina essa que ambicionava fazer desde o ano lectivo anterior. 

Quando entrei no último ano do Secundário, deram-me a escolher quatro pares de opções dos quais só podia seleccionar três: Inglês/Espanhol, Inglês/Psicologia, Geografia C/Espanhol e informática com outra coisa qualquer. Eu, como amante das línguas, escolhi, naturalmente, o primeiro conjunto, porém, aconteceu que a professora de Geografia persuadiu quase toda a gente com a aliciante proposta da Geografia C. Esta disciplina manhosa e, ao mesmo tempo, fantástica. 

Geografia C era uma disciplina pioneira na minha escola que não costumava abrir por falta de alunos. Consiste em geografia humana com um travo a História e a maneira de triunfar é pura e «simplesmente» trabalhar muito em aula, bem como brilhar nas apresentações orais, que são o elemento principal de avaliação, porque não há testes. É verdade. E com isto, claro, a professora convenceu 90% da turma. 

Eu não tinha relações completamente cortadas com o terceiro grupo, pois, de facto, havia escolhido Geografia C/Espanhol, mas como última hipótese. Ou era isso ou a informática, no entanto... sinceramente, não estava para aí virado. 

Descobrimos rapidamente que não era uma disciplina assim tão gira quanto isso. A ausência de testes obriga os critérios de avaliação a ganhar um rigor bastante maior e, portanto, a nossa professora não tolerava brincadeiras. 

Ainda assim, pouca gente quis voltar ao sistema antigo, o que foi um alívio para mim, dado que me dou muito melhor com apresentações orais. Aliás, apesar do esforço enorme que tive de investir em Geografia C - pois além de qualidade, a professora também exigia criatividade - não me arrependo nada de me ter calhado a terceira opção. Tirei uma nota de pauta que alimentou bem a ascensão da minha média. Foi também graças a Geografia C que concebi trabalhos que ainda guardo como recordações, mas isso são outros quinhentos. Regressemos ao que interessa. 

Com o Inglês às costas, não só consegui a oportunidade de fazer as duas línguas estrangeiras no 12º ano, como também fiquei na turma de uns quantos amigos que já conhecia. O único problema era que se econtrava muito cheia e, por conseguinte, muito barulhenta, no entanto, ao menos a parte da adaptação social já estava a meio caminho andado. 

É importante frisar que a única disciplina à qual ia ter notas era a do idioma anglo-saxónico, pois lembrando que tinha terminado a escolaridade obrigatória, ia às aulas de Português apenas para assistir. Tal revelou-se um grande desafio, porque eram extremamente pesadas e por muito que eu gostasse do programa, que era predominantemente literário, sentia-me incapaz de me manter concentrado. Felizmente, um dos meus melhores amigos, o David Fernandes, dava-me uma mãozinha... ou melhor, um cotovelo: acorda, pá! 

Esta fase, que eu considerava bizarra por nunca ter encontrado uma curva no meu percurso académico, começou com o pé direito quando mesmo no início das aulas surgiu o primeiro Spelling Bee da escola. Era um concurso de soletragem em inglês cuja intenção era aliviar o choque da reinserção na rotina, penso eu.

Eu inscrevi-me. Pareceu-me bastante interessante na medida em que para já, estava relacionado com palavras e depois eu não tinha Inglês há um ano, pelo que estava desejoso de participar numa actividade assim. Acabei por conquistar o segundo lugar, o que foi o máximo! Só não subi de patamar por culpa de uma letra, mas diverti-me à grande e inscrever-me-ei noutro sem dúvida se puder. 

Uma das vantagens de ter um dos meus melhores amigos como colega de turma era precisamente a de pormos a criatividade de ambos a trabalhar em conjunto. Quando a professora de Inglês anunciou o prazo de menção dos temas para a produção oral, ele e eu combinámos fazer teatro, produzindo uma peça em cada período.

Não podíamos ter tido melhor ideia,  divertimo-nos a valer! Eu, pelo menos, senti-me realizado como há muito tempo não saboreava essa emoção. Tratámos de tudo! Do guião, da representação, do plano do espaço e dos adereços.

A primeira produção foi sobre o multiculturalismo, a qual está disponibilizada no blogue É Contar e Encantar.Houve uma parte em que as personagens estavam a comer num restaurante e à falta de alimentos falsos, tivemos de usar comida real. Admito que não me orgulho inteiramente deste aspecto, contudo, não usámos grandes porções e os pratos eram de bebé, com tamanho suficiente para albergar somente uma sobremesa. Isto atiçou a curiosidade do público e o que aconteceu efectivamente na acção foi a cereja no topo do bolo. 

O resultado numérico foi prazenteiro de se ouvir, fazendo, em parte, com que o esforço tivesse valido a pena. No meu caso, até agora poucas coisas me deram tanto trabalho, mas o benefício principal destes projectos foi a sua própria natureza. Eu sempre fui um grande amante de teatro, deliro com a intensidade dos sentimentos passíveis de ser transmitidos ao vivo. É magia materializada! E o sabor torna-se ainda mais valioso quando existe um claro momento de partilha entre os actores e o público. Foi esplêndido perceber que nós os dois não éramos os únicos a viver a peça. 

A única hipótese que me concederam de estar do outro lado, tirando as peças que produzi com o meu melhor amigo, ocorreu em Março de 2015, numa oficina antes da Páscoa. Para grande pena dos participantes (incluindo a F♥ ), só durou uma semana, por isso, a minha prestação enquanto actor nunca pôde ser muito desenvolvida. Honestamente, não é algo do qual eu queira viver ou fazer com muita frequência, mas gostaria de o melhorar na mesma. 

De forma a finalizar o primeiro período em alta, conhecemos um artista fabuloso, mestre quer na música, quer no desenho. A acrescentar a isto, partilhava o nosso interesse por alguns temas e, assim sendo, a convivência não foi difícil de se fazer fluir. 

Na segunda ronda, com as memórias do Natal e do Ano Novo ainda bem frescas e a não querer ceder o espaço aos novos conhecimentos a adquirir, tínhamos, sem dúvida, de começar a pensar na nossa segunda peça. Aprendêramos da última vez que o tempo, apesar de abundante para um projecto comum, era relativamente escasso para o que nós pretendíamos. Convém também não esquecer que falávamos de teatro amador, pelo que a falta de experiência nos atrapalhava. Posto isto, principiámos o guião quando a data da apresentação ainda nem sequer estava marcada. O tema retratava um método de ensino inovador: a pedagogia Waldorf

Esta obra revelava-se mais desafiante, porque para além de ser significativamente maior, era sobretudo mais complexa. Não só pelo tema em si, que envolvia pesquisa, mas também pela estrutura do enredo. Ao contrário da peça anterior, a qual possuía apenas duas personagens, esta tinha cinco para dois actores que eram tudo menos actores. E como se não bastasse, havia a necessidade de as distinguir, portanto, todas tinham uma aparência diferente (Encontrem-na em É Contar e Encantar). 

Não nos perguntem por que raio decidimos complicar. Creio que, de certa maneira, estávamos a achar divertido «sofrer». O mais difícil para mim era debitar a tabuada do dez à velocidade da luz. Eu sei, eu sei, a do dez é para meninos, mas tenhamos em conta que eu sempre fui péssimo a Matemática e que, por esta razão, apostar numa mais arrojada àquele ritmo e com aquela pilha de nervos, seria a morte do artista. 

Conseguimos ter tudo pronto por uma unha negra, praticamente a roçar a data da nossa apresentação. Tal deveu-se a alguma falta de tempo para ensaiar, muita indecisão sobre quem interpretaria quem e também porque - é sensato admitir - nos perdíamos de vez em quando na conversa.

Porém, ao fim e ao cabo, o decorrer da peça passou a voar e, embora estivesse nervosíssimo, diverti-me mais do que da última vez graças à maior complexidade. Arrancámos à professora uma nota melhor que a outra, o que tornou a nossa criação duplamente gratificante. Há lá melhor conquista que superarmo-nos a nós mesmos? 

Como que uma recompensa pelo bom trabalho, uma ida ao teatro veio mesmo a calhar. No ano anterior a minha turma não tinha ido ver a peça Felizmente Há Luar!, porque não havia interessados suficientes, mas desta vez a oportunidade surgiu novamente e não a deixei escapar. Eu já tinha adorado ler o guião da peça, todavia, senti-la a ganhar vida foi incomparável. Actores formidáveis para uma peça com a mesma qualidade mágica. 

Seguiram-se as férias da Páscoa, que souberam a pouco (tal e qual como todas as outras férias) e atrás delas veio o temível, impiedoso e decisivo... terceiro período! (Música de suspense). 

O início do último segmento do ano lectivo presenteou-nos com um contador de histórias magnífico, do qual vou sempre manter memórias tão vivas quanto o entusiasmo imenso e contagiante com que ele se expressava. Jorge Serafim, para além de um excelente contador de histórias, é também um humorista deveras dotado, adocicando desta maneira as suas narrativas. Ele pasmou e divertiu os seus ouvintes. Melhor: ao instalar-se nos seus corações, pô-los um pouco mais contentes naquele dia. A mim deu-me energia de sobra para vários, até. 

Já o tinha visto ao vivo antes, mas admirá-lo na biblioteca da minha escola, na primeira fila foi, indubitavelmente, uma experiência sem par. Recomendo-o vivamente a quem estiver interessado. Não há como resistir ao seu castiço sotaque alentejano. 

Entretanto, o David e eu tínhamos de pôr mãos à obra para edificar a nossa terceira peça. Aproveitámos um dos temas mais abordados daquela altura: as eleições nos Estados Unidos que, por sua vez, abrangiam o racismo e a xenofobia. O enredo surgiu quase todo com bastante naturalidade, o que poupou muito tempo, todavia, o mesmo exigia uma complexidade de elaboração ainda maior do que a das outras duas. Cientes de que havíamos voltado a duplicar o nosso «sofrimento», aceitámo-lo sem hesitação. 

Esta produção em particular foi especialmente divertida, não só por ter sido a mais trabalhosa, mas também porque foi, na minha óptica, a mais cómica. Considerando que o Carnaval já há muito tinha passado, para me assemelhar ao Trump, eu tive de usar uma peruca feita de pequenos fios de lã cosidos ao que restava de um par de collants. Cortámos-lhes as pernas e obtivemos a base para o adereço. Foi um trabalho árduo particularmente para mim, que tenho défice de psicomotricidade fina, um defeito que prejudica a precisão dos movimentos. Devemos ter cosido centenas de fios, pois nunca mais acabavam, mas foi engraçado ver o resultado: não conseguimos bem uma peruca do cabelo do Trump, porém, o Bob Marley loiro serviu lindamente para o papel. O fato, a gravata e o púlpito de cartão forneciam-lhe alguma credibilidade. 

(...)

 

(Continua na próxima publicação)

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