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Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

04/03/17

História sem Palavras

por Olavo Rodrigues

Não precisando do peso ancorado de pensar,

Apanho a leveza instantânea do sentir, 

Que é pura e amorfa, 

Sempre pronta a contar a verdade de mentir. 

 

A história sem palavras é a que veio para vingar, 

Partilha a imaginação de igual maneira

Sem obrigar o receptor, faminto de brincadeira, 

A aceitar a verdade do contador. 

 

As palavras aqui não importam, 

Estragam o sabor com a sua arrogância de saber,

Assim, o deserto branco murcha

Sem desfrutar do que é viver. 

 

Ora viva, bloguistas! Dedico este poema a uma música de infância que traz com ela todo um rolo de memórias. Ao contrário das minhas preferências habituais, esta não tem uma única palavra, mas a melodia revela toda a poeticidade desejada. É uma combinação perfeita de alegria, tristeza e calma - quase a mistura completa dos ingredientes que compõem as vidas de cada um - e é exactamente assim que eu a encaro: como o resumo de uma vida. 

Encontrei-a há muitos anos num videojogo multijogador de nome RuneScape. A música em questão chama-se "Newbie Melody" e fazia (ou faz, não tenho a certeza) parte do grupo de melodias que iam passando para dar ambiente. No entanto, eu sempre senti muito mais que isso em relação a esta música em particular.

Tentarei não abusar das palavras, pois como já referi acima, creio que causam um efeito prejudicial neste caso. É como se a narrativa começasse com uma personagem bastante cansada, mas ao mesmo tempo com uma calma invejável, uma vez que sabe perfeitamente que as lutas exaustivas são essenciais ao crescimento pessoal. A meio, o ritmo muda para um registo mais mexido, indicando uma fase boa que subsistituiu a má anterior, contudo, entretanto, o/a protagonista cai abruptamente outra vez e o ciclo recomeça. 

A música termina de uma maneira relaxante como se o/a herói/ína estivesse a ver as últimas réstias de luz e fechasse por fim os olhos com uma paz interior abundante e a sensação gratificante de um dever cumprido. 

No fundo, é perfeitamente aplicável ao conceito de ser novo no jogo: muito para descobrir, muito bicho para enfrentar, progredir e algumas surpresas desagradáveis como morrer e ressuscitar sem nenhum dos itens caríssimos que tanto custaram obter.  

Gostei muito de saborear uma nova experiência musical apesar de só ter começado a dar-lhe tanto valor uns bons dez anos depois da minha primeira personagem do RuneScape. 

Se estiverem interessados, por favor, deixem a vossa interpretação nos comentários. 

 

 

 

 

 

 

 

 

14/01/17

O Voo das Palavras (1)

por Olavo Rodrigues

Nesta publicação começa uma rubrica relacionada com a minha paixão pela arte da palavra em todas as suas formas. Todas as minhas artes preferidas são regidas por este ainda tão misterioso fenómeno que é a linguagem humana: literatura, cinema, música e teatro serão os protagonistas destas reflexões, que em paralelo com a vida real, incendeiam a minha imaginação e coração. 

Hoje trago ao blogue "High School Musical 2". Pronto, eu percebo que uma possível primeira ideia que se tem quando se ouve ou lê este título não é a de um filme da mais alta qualidade filosófica, que antes de se ter tornado numa grande produção da Disney, habitou a mente turbulenta, mas extremamente rica de um génio. 

É comercial? É, sem dúvida: muitas carinhas larocas no elenco (mas isso faz sempre parte da estratégia de venda), existem muitos clichês românticos, o que se reflecte bastante nas músicas e as próprias personagens são também elas algo baseadas em banalidades mais do que gastas como o basquetebolista popular, a vilã que tem uma paixoneta por esse mesmo basquetebolista e que está disposta a acabar com meio mundo para o conseguir, e do nada, surge a rapariga angelical que sem querer rapta o coração do herói e se apaixona por ele, destruindo assim os planos da antagonista. O único apoio da mesma é então o seu fiel subjugado que vai ganhando força para a enfrentar ao longo da triologia. 

Troy Bolton (Zac Efron), Gabriella Montez (Vanessa Hudgens), Sharpay Evans (Ashley Tisdale) e Ryan Evans (Lucas Grabeel) apresentam-se, portanto, como as figuras centrais de um enredo que foi desenhado essencialmente para agradar ao público adolescente... Mas! Não sei se sou apenas eu, no entanto, não é só isso que sinto quando vejo "High School Musical 2". Já vi os três filmes, mas este, o segundo, é especial. Não me lembro muito bem dos outros, mas recordo-me perfeitamente de que assisti ao número dois vezes sem conta, às vezes, quem sabe, mais que uma vez por dia! Os meus pais já estavam pelos cabelos! Bom, também devo confessar que estava na idade "certa" quando descobri o quanto adorava o filme, não devia ter mais que treze ou catorze anos.

Ao ver "High School Musical 2", eu percepciono a tradução cinematográfica da adolescência no seu expoente máximo: muitas alegrias, todo um mundo novo a erradiar expectativas e sem se estar à espera, a perda do controlo acontece, acabando com o plano de sonhos. 

O futuro! Essa divisão secreta e trancada por uma porta que nunca dá com a língua nos dentes até a altura certa chegar. Limita-se a olhar inexpressivamente para as nossas caras confusas, ansiosas e expectantes. Têm de trabalhar arduamente para a efrentar porque ninguém vai dar nada de mão beijada àqueles putos do Secundário. A faculdade está quase à porta, por isso, um emprego de Verão parece a ideia perfeita. 

Sharpay tinha tudo planeado e estava a correr-lhe às mil maravilhas... Porém, não contava com os amigos basquetebolistas de Troy e quando descobriu que Gabriella havia sido contratada para vigiar a piscina do clube, quase lhe deu um treco. Por sinal, todos os outros ficaram igualmente surpresos ao descobrirem que os pais de Sharpay e Ryan eram donos de um clube tão caro. 

Troy consegue subir na vida, contudo, não exactamente como tinha planeado primeiro. O que fazer? Escolher o sucesso ou os amigos? Uuuui! Aí é que a porta torce o rabo! Há lá pior dilema para um jovem que ser obrigado a tomar uma decisão tão complicada, considerando que ainda mal saiu da fase de usar fraldas? A canção Bet on It ilustra na perfeição o que se passa na cabeça tempestuosa de um adolescente com regularidade. 

Mais que as incertezas e as desavenças com os outros e com o interior das próprias personagens, a triologia High School Musical em geral é alegria e positivismo no seu melhor. Eu não aconselho a que se use os clichês em demasia, mas acredito que são sempre necessários e que uma história ou música sem eles já fica sem metade do gozo. Esta colecção de filmes com especial destaque para o segundo é, sem sombra de dúvida, o reflexo pleno da minha opinião: as músicas, embora joguem muito com o amor e a amizade, ficam no ouvido num instante, sou capaz de passar um dia inteiro a cantá-las. 

São autênticas bombas de energia positiva! E não é isso que se quer também de uma história ou de uma canção? Que nos deixe a pensar e que faça o nosso coração palpitar de alegria? Somente dois ou três minutos de vozes e melodias sincronizadas são suficientes para nos fazerem sorrir com mais facilidade no nosso dia-a-dia, é espantoso! O poder da palavra não tem limites!

Mais! A colecção High School Musical fornece  a combinação perfeita de notas musicais, cores vibrantes e actores para que toda a experiência se torne inesquecível! Há que reconhecer que o elenco foi muito bem escolhido, pois eu creio que a mestria da arte é alcançada quando se é capaz de ultrapassar os olhos do alvo e tocar-lhe na alma. 

Os filmes essencialmente românticos por norma aborrecem-me, gosto de que o amor seja um complemento e não o tópico principal do enredo, no entanto, esta triologia é sem sombra de dúvida uma excepção à regra. A minha canção preferida é You Are the Music in Me e céus! O romance de qualidade respira-se! A letra é de uma poeticidade soberba, bem como todo o ambiente que se cria à volta dela e a interacção dos actores... Aquilo não é representação, é magia!

Nota-se um brilho especial nos olhos e na linguagem corporal de cada um, o que denuncia que eles aparentam estar de facto apaixonados, a sentir a música e o amor a fluir-lhes no fundo da essência. E talvez estivessem mesmo, ouvi dizer que Zac Efron e Vanessa Hudgens namoraram. Todos os gestos que fazem são pura poesia, ora verifiquem-no por vocês mesmos:

 

Este tema surge de novo mais para a frente no filme, mas para grande desgosto meu, não posso mostar-vos esse momento, visto que vos revelaria demasiado. Todavia, é a meu ver a cena cinematográfica mais romântica de sempre ou pelo menos da história da Disney. 

Concluindo, eu gostava de dizer que High School Musical 2 significa muito para mim devido ao facto de ter o melhor dos dois mundos: consegue aproveitar toda a beleza das banalidades e mesmo assim apresentar um lado profundo e realista com o qual imensas pessoas se identificam ou já se identificaram. 

 

Informações adicionais sobre o objecto de crítica:

Datas de lançamento: 20/1/2006; 17/8/2007; 24/10/2008;

Realização:Kenny Ortega;

Argumento: Peter Barsocchini;

Elenco principal: Zac Efron; Vanessa Hudgens; Ashley Tisdale; Lucas Grabeel; Corbin Bleu; Monique Coleman; Oleysha Rulin;

Filmes relacionados: High School Musical - El Desafío (filmes da Argentina e do México - 17/7/2008 e 24/8/2008); High School Musical - O Desafio (Brasil - 5/2/2010); Sharpay's Adventure (19/4/2011);

Colecção de Livros: High School Musical - Stories from/Histórias de East High (16/1/2007-21/7/2009 - 14 volumes);

 

 

 

10/06/16

O Conceito de Arte Está a Mudar?

por Olavo Rodrigues

Apesar de todos os seus defeitos, a humanidade também concretizou façanhas notáveis ao nível do seu intelecto, que felizmente, ainda não é totalmente investido no armamento. A ciência e a arte, por exemplo, demonstram como a nossa espécie pode ser bem-sucedida, quer na resolução dos problemas que nos rodeiam, quer na reflexão dos nossos pensamentos e actos ou então, no simples desejo de divertir.

As novas tecnologias, nomeadamente a "internet", trouxeram a toda a gente um acesso muito mais amplo à exposição do seu talento pessoal, independentemente do que for. No entanto, há que considerar que é também por ser possível uma maior aparição, que existem, aos olhos de muitos, as produções "vazias". Muitos ramos da arte têm sido enchidos em abundância com este tipo de conteúdo. 

Gostava de abordar a música em particular, não só por ser bastante consumida por todos os seres humanos (pelo menos, eu ainda não conheci ninguém que não a apreciasse, mas é provável que haja), mas também porque representa a vivência de emoções vindas do fundo da alma, esta arte carrega-me nos braços como uma mãe a embalar um bebé.

Considerando gostos sem atacá-los ou pelo menos agressivamente, a meu ver está a haver uma sobrevalorização da música do bailarico.  Apelido assim os estilos de música cujo único propósito é entreter, que estão isentos de transmitir qualquer tipo de mensagem intelectual ou sentimental. 

Hoje em dia ouve-se com demasiada frequência canções relacionadas com sexo, que possuem demasiados palavrões e noutros casos, coisas sem qualquer sentido. Quero alertar que não estou a condenar os temas em si, mas a forma como são trabalhados. Todos eles são importantes, até porque "lógico" nem sempre é sinónimo de "divertido".

O problema é que cada vez mais a música se distancia do seu verdadeiro propósito. As canções da actualidade são amiúde baseadas em mulheres esculturais expostas de uma maneira tão ordinária como as palavras que descrevem o que o sujeito «poético» quer delas. São também extremamente repetitivas - o cantor passa dois ou três minutos a repetir a/s mesma/s frase/s - e acima de tudo, muitas das vozes carecem de qualidade. Algumas são minimamente afinadas, mas não servem para cantar. 

E agora respondem-me: "até parece que não gostas de ver essas mulheres".

Sim, é verdade, eu gosto de ver mulheres bonitas, contudo, não neste contexto. Malta. a música é uma arte dedicada à audição, o que é contraditório, dado que a parte sonora aparenta estar a ser despromovida a complemento. 

Uma coisa é certa: mesmo nas produções consideradas "comestíveis", existe o problema da discriminação relativa ao aspecto físico. Normalmente, são as pessoas que nascem com este dom que obtêm a atenção das câmaras, tal não vai mudar tão cedo. 

É claro que a imagem é sempre necessária, mas transformem-na em poesia. Escolham sítios bonitos nos quais a acção da história cantada possa decorrer saborosamente, ponham os actores a interagir uns com os outros de uma maneira romântica se for uma canção sobre o amor, ou se for apenas para curtir, simulem uma festa de criar água na boca, mas uma produção feita a partir de palavras como "mesa" ou "cabide", misturadas com uma batida, não são um trabalho criativo. 

A arte, não importa o tipo, é a capacidade de um determinado indivíduo se superar a si mesmo em cada concepção, espalhar um pouco de diversidade aqui e ali pelo mundo fora. É comunicar-se com os demais e deter o avanço do relógio, nem que seja por breves momentos para fazer os outros pensar: "o que diabo é isto?" Ou então: "bem jogado, ainda ninguém os teve no sítio para dizer ou fazer isso!" .

Ou pode ser simplesmente uma gargalhada revigorante com a missão de ressuscitar a alma depois de um dia da treta. Ao colocarem tochas em locais totalmente escuros, os artistas arrecadam mais uma vitória para a humanidade, nem que tenha sido apenas pelo esforço. Ninguém os pode criticar, eles ao menos, foram lá.

A arte é a prova viva e palpável de que os sonhos não habitam só na imaginação. Trata-se de uma vivência inexplicavelmente recompensadora. 

E agora vem a parte cinzenta: são estes estilos de música arte? Pelo que referi há uns parágrafos atrás, a minha opinião é perfeitamente perceptível, porém, não é minha intenção afirmá-la como verdade absoluta. 

Numa aula de História, a minha professora mencionou uma premissa que me fez reflectir: um projecto artístico é todo aquele que nunca foi identicamente concebido. Se é inédito, é provável que seja arte, pois nunca ninguém teve uma ideia semelhante. São muitos os criativos incompreendidos que mais tarde são idolatrados por milhares ou mesmo milhões. Os da geração de Fernando Pessoa são um exemplo.

Jamais em tempo algum alguém se lembrou de desatar a dizer "´tá tranquilo, ´tá favorável, 'tá tranquilo, 'tá favorável". Nem: "um pente é um pente, é um pente, é um pente...". Citei dois exemplos do funk, mas o mesmo se aplica a outros estilos marginalizados como o kuduro, o kizomba, a electrónica, etc. 

Na minha óptica, há que ter em conta que um dos elementos principais das criações artísticas é a subjectividade. Muitas das pessoas vivas na primeira metade do século XXI tentam fugir de músicas assim como o diabo da cruz, mas quem sabe, na segunda parte ou no século seguinte, toda a gente pode ser atraída por elas como eu pelo chocolate. É possível que seja inclusive uma moda passageira.

Há que existir espaço para todos os gostos e artistas. Eu confesso que caio imensas vezes na tentação de insultar as músicas do bailarico sempre que são transmitidas na minha escola. Deus do Céu! E como aquela escola gosta daquilo! Felizmente neste sentido, fico contente por o Secundário estar a atingir o seu prazo de validade.

Não obstante, estou bem tramado se na faculdade a preferência musical for similar. Vou ter de aprender a respeitá-la por muita confusão que me faça.

Apesar de toda esta conversa, a razão base que me conduziu a esta crónica é o desequilíbrio. Eu não gosto de kuduro, kizomba, funk ou outro tipo de música semelhante, mas lá por haver apreciadores dos ditos, não significa que estes os oiçam 24 horas por dia. Eu sou assim, por exemplo, gosto de ouvir um outro tema cantado pelo Quim Barreiros nas festas da minha terra, todavia, não é do meu agrado passar a tarde a ouvi-lo no quarto.

Honestamente, acredito que algumas pessoas nem sequer sabem o porquê exacto de gostarem daquilo. Gostam porque sim e todos nós temos esta particularidade. 

O cenário que realmente mexe comigo é o de se encontrarem tantos Joãos Só, Ruis Veloso, Brians Adams e Freddies Mercury por aí que dão o litro para serem descobertos e não conseguem devido a uma massa gigantesca de indivíduos que já não se importam nada com a qualidade da voz ou da letra da música. Canções lindíssimas de género idêntico a "Vou a Marte", "Anel de Rubi", "Summer of Sixty Nine" e "We Are the Champions" estão a perder a batalha.

Este fenómeno relaciona-se com a identificação que os jovens, principalmente, sentem em relação ao que escutam. Neste período da História testemunhamos o atrevimento do sexo, que retira à velocidade da luz, o rótulo "tabu" da testa. É perfeitamente normal, os comportamentos percorrem sempre os dois pólos antes de entrarem nos eixos.

Com este texto, que já assumiu uma dimensão estratosférica, pretendo apelar à diversidade, o equilíbrio é imprescindível! Nem tudo muito sério, nem tudo muito esbardalhado. Mas a minha opinião vale tanto como a de qualquer outra pessoa, por isso, o mais plausível é ganhar as mesmas, quase de certeza que não retirarei outro proveito senão desanuviar a alma. Ah! Ah! Ah!

O que é que vocês acham? O conceito de arte está a mudar? Eu cá não faço a mais pálida ideia. 

 

 

 

 

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