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Toca do Coelho

Uma espécie de blogue/livro/coiso com espécies de texto.

Toca do Coelho

Uma espécie de blogue/livro/coiso com espécies de texto.

25
Abr20

Tolerância aos Chineses

Olavo Rodrigues

Em cada esquina um amigo,

Em cada rosto igualdade,

Grândola Vila Morena,

Terra da fraternidade

AFONSO, Zeca - Grândola Vila Morena

Eis mais um pensamento algo aleatório, mas que me parece pertinente para a atual situação: soube de alguns relatos de pessoas que incriminam o povo chinês da pandemia. Não me refiro ao governo da China, mas às pessoas perfeitamente comuns do dia a dia que encontramos nas lojas e que têm de aturar comentários do género: "a culpa disto é vossa".
É de esperar que estes cidadãos não tenham nenhum pacto com o governo do seu país de origem, pelo que são tão vítimas do coronavírus quanto nós. Prevendo um crescimento da xenofobia contra os chineses nos próximos tempos, gostava de apelar ao bom senso: deixem estas pessoas em paz.
Como é que se sentiriam se fossem a uma ex-colónia de Portugal e vos dissessem: "baza do meu país, português esclavagista!"? Da mesma maneira que nós não merecemos ser desancados devido às más ações dos nossos antepassados, só é justo que tenhamos a mesma consideração por pessoas que não participam nem nunca participarão numa conspiração política.
Eu sei que o que vou escrever a seguir é utópico e está fora do alcance da civilização atual, mas esta epidemia serve para nos mostrar que estamos muito mais ligados do que pensávamos ou queríamos aceitar. Bastou uma coisa minúscula, que nem sequer se vê a olho nu, para assolar o mundo que conhecíamos. Perdoem-me a brusquidão, mas foi um valente chapadão na tromba: mesmo um daqueles que vemos no meme do Batman e do Robin.
A economia de toda a humanidade está de rastos, o que prova que a globalização apagou imenso as linhas do mapa. Quer queiramos aceitá-la ou não, a verdade é que já fazemos parte de uma unidade cujas peças são inseparáveis. Hoje em dia, faz cada vez menos sentido designarmo-nos como "portugueses", "espanhóis", "angolanos", "chineses", etc. Cada vez mais, tal como sempre devia ter sido, a casa de todos nós é a Mãe Terra.
Quer dizer, espalha-se que estamos todos metidos nesta alhada e que a humanidade deve permanecer unida, sim senhor, tudo muito bonito, mas basta desligar a televisão e as redes sociais para nos esquecermos disso? Ai a humanidade é isso?
Pessoal, se não queremos continuar a levar chapadões assim, precisamos realmente de trabalhar na consciência coletiva. Os pobres lojistas que encontramos por aí não fazem mais do que tentar manter o seu ganha-pão como qualquer outro. Então, porquê castigá-los com cortes na regularidade das visitas ou abdicar delas por completo? Porquê, ó, Senhor, incriminá-los? Parem de disseminar raiva. Já basta o maluco do Trump chamar a isto "vírus chinês", porque é mesmo disso que necessitamos, de nos dividirmos...
Toda a gente precisa de toda a gente. Nós precisamos dos chineses e eles precisam de nós. Quando não houver ressentimento contra esse povo, haverá contra outro qualquer e, nessa altura, perceberemos que também necessitamos do novo alvo. Porquê? Porque como presenciamos, quando um ou dois caem, gera-se o efeito dominó.

Eu não sou ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo.

Afirmou Sócrates, que viveu antes de Cristo. Se um iluminado foi capaz de formular esta ideia num mundo onde a vida humana não tinha qualquer valor e existia um sentimento exacerbado de divisão, porque é que a sociedade globalizada do século XXI comete erros tão mesquinhos e desprovidos de sentido?
Para finalizar, declaro e incentivo: acima de português, europeu e ocidental, eu sou um cidadão do mundo.

21
Nov19

Muro Geracional

Olavo Rodrigues

- Olha lá, filho? - Chamou a minha avó enquanto eu acabava de beber água para apanhar o autocarro. - Não gostas deste programa? Tu ias gostar. É de cultura geral. - Isto veio a propósito de um anúncio a Mental Samurai, que passa na TVI e eu - com a maior espontaneidade e paz interior - limito-me a dizer de minha justiça.

- Não ligo muito à SIC nem à TVI. - Foi o suficiente para levar logo com isto na fuça:

- Pois, só gostas daquele parvo, não é?

Por “aquele parvo” entenda-se “Felipe Neto”, o youtuber que mais me consome tempo televisivo. De facto, sim, é muito parvo, pois de outra maneira não teria piada. O que adoro no Felipe é que me faz rir tanto quanto me faz pensar, mas para a minha avó, tal como para outras pessoas mais velhas, a estrela do YouTube só sabe produzir conteúdo vazio e nadar em dinheiro graças a isso. Não critico a minha avó, que tem mais que fazer do que discutir com o neto o parvo que ele tanto admira, mas trago uma análise àquilo que se conhece como o “muro geracional”.

Todas as gerações apreciam diferentes tipos de parvoíce, mas, por alguma razão, a de cada geração só é visível às outras. Há uma espécie de véu que nos cai nos olhos à nascença e que transforma qualquer gosto descabido nosso num primor de entretenimento e/ou intelectualidade, numa obra-prima como nunca se viu, no fenómeno do século! O que vem de trás, segundo a maior parte da gaiatada, não presta, porque o que é para cotas é uma seca e, o que vem a seguir, é a ruína catastrófica da verdadeira qualidade de vida. “Já não se fazem desenhos animados como antes!” é apenas um exemplo do que se costuma ouvir.

Volto à barreira entre mim e a minha avó. O seu Felipe Neto é a Cristina Ferreira. Da mesma forma que, se puder, vejo os dois vídeos diários do youtuber, a Cristina ocupa a televisão dos meus avós com igual devoção. Às terças e às quintas, quando almoço mais cedo, lá está ela a debater um crime com outros comentadores ou a atribuir um prémio rechonchudo ao sortudo que ligou, no momento certo, para o número do ecrã. Mas não fica por aqui. A minha avó não brinca em serviço, não senhor! Compra-lhe as revistas, é uma seguidora ávida das suas entrevistas e sabe na ponta da língua que produtos da Cristina Ferreira estão à venda. Eu não a censuro. Só não compro artigos do Felipe Neto, porque este não os lança em Portugal, mas dá-me gozo acompanhá-lo fora do seu canal por beber as suas palavras e sentir que há sempre algo novo a aprender com ele.

Diverte-me com as suas reações aos melhores memes da internet e satisfaz-me a sedenta curiosidade com vídeos de conhecimento de tudo um pouco. Além disso, se há um traço a destacar, é a sua infinita determinação de não fazer a mesma coisa por muito tempo, oferecendo um constante estado de criação. Representa, desse modo, uma fonte de inspiração para mim. 

Acrescento que a sua incansável luta contra o machismo, a homofobia e a transfobia se mostra incontornável. Que não se deixe cair no esquecimento a incrível promoção da tolerância que concretizou ao comprar 14 mil livros com conteúdo LGBTQ+, distribuindo-os gratuitamente a quem quer que quisesse levá-los na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. As obras tinham o seguinte rótulo: "este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas". Esta agressividade foi um contra-ataque à medida de censura do governador do Rio, que pretendia classificar como pornografia todos os livros que tivessem um resquício de homossexualidade tão simples como um beijo. Para "proteger" os menores, as obras seriam embaladas em sacos pretos com um aviso. 

À luz de tudo isto, tenho a certeza de que a minha avó sente uma ligação parecida à apresentadora da SIC. Diria até que há paralelismos entre a Cristina e o Felipe: o primeiro é o próprio modelo de trabalho. O canal do youtuber funciona como uma autêntica empresa - tem guionistas, editores, técnicos de som, etc - portanto, o único papel do proprietário nos vídeos é apresentá-los. O segundo aspeto em comum é o sentido de humor característico de tudo o que fazem ambos os entertainers, embora, claro está, sejam estilos diferentes. E por último, mas não menos importante, a inevitável tendência de gritar. Por um lado, temos (tínhamos): “esta resposta está... certa!” e, por outro, ouve-se (ainda): “é mas, não mais, diabo!”.

Comentários sobre a integridade dos tímpanos à parte, impõe-se a questão: o que é que torna tão difícil a visibilidade das parecenças e a aceitação das diferenças? E, mesmo que reconheçamos as primeiras, porque só gostamos delas no nosso molde geracional? A bem da verdade, talvez não exista uma resposta direta e unívoca. É tudo uma questão de hábitos e, posto que a humanidade tende a rejeitar o que é diferente do que costuma viver, a mesma ideia expressa de uma forma distinta sujeita-se à recusa. Aconteceu-me quando, pasmo, me deparei com a dobragem em português do Doraemon e do Cartoon Network. Só me ocorria: “o que raio fizeram à minha infância?”. É muito fácil de deduzir: mudaram-na para a ajustar às necessidades da infância de outras pessoas e, goste ou não, o mais natural é ter de me aguentar à bronca.

No fundo, creio que a rivalidade de gerações se resume à preguiça de entrar a sério no lado do outro, porque já levamos um certo tipo de formatação. No entanto, ainda bem que esta teimosia alimenta a vontade de separação, pois isso conduz a humanidade à constante reinvenção e ao aparecimento incessante de novas maneiras de conceber o mundo na semelhança e na distinção.

E vocês? Querem falar mal dos interesses de alguém para o incentivar a persistir na diferença?

06
Out19

Memória Eidética

Olavo Rodrigues

Se há coisa em que sou óptimo é esquecer. Não há dia em que não fique preocupado com a possibilidade de ter perdido alguma coisa. De vez em quando, chego a ter um mini ataque cardíaco, especialmente quando não sei da carteira – que já perdi duas ou três vezes – e acabo por constatar que estava apenas um pouco mais bem escondida no bolso ou guardada na mochila.

No entanto, umas vezes para bem e outras para mal, o meu cérebro tem uma capacidade de preservar memórias inúteis para o “aqui e agora”, que excede em muito conseguir lembrar-me de que não preciso de procurar os óculos, porque já estão na cara. De facto, o cérebro funciona como um computador e, se abríssemos o meu, veríamos três pastas principais na zona das memórias: “pessoas”, “lugares” e “experiências”.

Em jeito de exemplo, na primeira encontra-se o meu professor de Prática de Tradução de Inglês-Português, o qual infelizmente já faleceu. Era a personificação do “estou-me a marimbar!”, o que dava para perceber pelas suas antologias de capa mole com somente um agrafo a unir tudo. Ou então: "gosto de passar o Natal a beber cerveja. Agora por vossa causa, vou de ter de o passar a corrigir testes, por isso, se as notas e os comentários saírem um bocado esquisitos, já sabem porquê." Ou melhor ainda por esta inesquecível confissão: “se acham que perco tempo a preparar as vossas aulas, são mesmo tolos. Tenho mais que fazer!”. É claro que isto não passava de gozo, pois o semestre inteiro estava planeado e registado na antologia.

O meu professor deixou estas e muitas outras pérolas hilariantes e ou era adorado ou detestado. Falando do meu caso, creio que não há ninguém melhor para ensinar do que um excelente contador de histórias. Sentido de humor não lhe faltava, pelo que não havia uma única aula sua da qual eu não saísse bem-disposto. “Ele só sabe falar da vida dele!”, argumentavam alguns. Porém, eram precisamente as vivências do mestre que nos forneciam conhecimento sobre tradução e cultura. Oxalá pudesse ser sempre ensinado e entretido ao mesmo tempo.

Não abandonando o Ensino Superior, um lugar a destacar é, sem dúvida, a minha primeira faculdade. Um sítio maravilhosamente invulgar onde se encontra todo o tipo de pessoas: desde a rapariga aleatória que passou disfarçada de vaca ao amigo sempre descalço e ao autor com bichos carpinteiros, que nunca pára de andar de um lado para o outro, perdido num local alheio ao espaço-tempo. E está tudo bem. Sem stresse e sem limites desde que não se provoque stresse. A paz, a empatia e a curiosidade são indispensáveis e existem naquele espaço de forma tão consistente como as próprias aulas.

Hoje em dia, estou num sítio diferente no qual ainda não encontrei um encaixe, mas não faz mal. Pressa para quê se a semelhança com a primeira faculdade já é meio caminho andado para me sentir integrado? É verdade que é estranha esta familiaridade por não conhecer quase ninguém. Contudo, como sou exímio em esquecer, não me recordo de que começar e acabar é o resumo da vida.

Bem, o que dizer da pasta das experiências? As experiências são compostas por pessoas e lugares, os quais, por sua vez, dão à luz um momento nem que seja fictício. Eu devoro tudo o que me alimente a imaginação, seja novo ou velho, seja para miúdos ou graúdos. O principal motivo pelo qual escrevo ficção é poder, como as crianças, brincar ao faz-de-conta independentemente da minha idade. Escrever, na verdade, parece-se muito com montar legos: ao juntar pecinhas ou palavras, criamos qualquer coisa. Qual é a piada de ser adulto se não for também criança? Qual é a piada da vida sem imaginação?

Assim sendo, é frequente eu voltar a programas da minha infância ou adolescência como Phineas e Ferb, a músicas de High School Musical e a jogos como o Club Penguin. Não costumo procurar material de escrita, posto que isso surge de maneira espontânea. A questão é que sou um nostálgico incansável, portanto, é fundamental conservar a memória eidética. Entusiasma-me imenso imortalizar onde estive, com quem estive, o que vivi e o que não vivi.

Talvez nunca atine com o paradeiro da carteira, mas de certeza que nenhum lugar, pessoa ou experiência há-de cair na reciclagem.

04
Jun19

Eh, Pá, Não Me Apetece!

Olavo Rodrigues

Para mim, um dos melhores conselhos para vencer a página em branco é escrever qualquer coisa. Qualquer coisa serve. Algo simples, espontâneo ou até mesmo aleatório como: "o porco escocês azul comeu o armário de morangos". O importante é desbloquear a fluidez, pondo o cérebro a carburar. Eu não publico regularmente há meses e, como tenho preguiça de ir buscar a minha lista de ideias, assim segue este texto ao sabor do vento: sem planeamento, sem um objectivo específico... talvez se transforme apenas no depósito de pensamentos que a vida não me permite descarregar tão amiúde como gostaria. 

O que contam vocês? Bem, só com um a falar é difícil ter uma conversa. Não estou com disposição para uma introspecção e também não quero falar da actualidade. Já há tanta gente a fazê-lo. Para quê mais um? Para quê nesta altura em que estou numa de dolce far niente?  Estou de férias e já me fartei de pesquisar para os meus trabalhos, por isso, vou cortar este impedimento à espontaneidade e deixar as grandes questões do nosso tempo a quem se interessa por elas agora. "Mas, Olavo, a actualidade é importante para sabermos com que linhas nos cosemos." Sem dúvida e não há nada a argumentar contra esse facto, mas se virmos bem, o mundo já sobreviveu a duas guerras mundiais - fora outras catástrofes de destruição massiva - portanto, só uns dias de folga da humanidade não devem fazer muita diferença. Além disso, se rebentar a Terceira Guerra Mundial ou outra desgraça com uma magnitude parecida, será impossível não saber dela. Ninguém cai numa cratera por não a ver. 

Assim sendo, que se dane a actualidade: a política, o futebol, os crimes (onde a política também se inclui), os parentes de 2019 da "Casa dos Segredos", entre tantos outros assuntos que geram incontáveis chatices. Acrescento que descansar não é só tirar férias da faculdade e do mundo, mas também de mim próprio. Eu que me dane! Ou melhor: parte de mim. Preciso da metade positiva e funcional, caso contrário, não usufruo do descanso nem deste texto. Dipenso, então, as instrospecções detalhadas e sem saída. Se estou a escrever algo sem rumo, que seja leve. Não seria justo da minha parte desejar descansar e depois bombardear-vos com tagarelice chata da mente. É possível que isto não seja muito mais interessante, mas ao menos não é nada de jeito, que é o que vem mesmo a calhar nas alturas em que abunda o tempo livre: cenas sem jeito nem maneira que não servem para rigoramente nada. Não são úteis nem educativas de forma alguma, porque se eu quisesse ser produtivo agora, não estava de férias. 

Só com palha já enchi quase uma página e vocês continuam a ler isto. Das duas, uma: ou estão muitíssimo entediados ou gostam mesmo de tagarelice sem pés nem cabeça. De qualquer maneira, sinto-me lisonjeado por preferirem esta divagação à omnipresente actualidade. Também estão de férias e adoptaram a minha filosofia, ou vieram à procura de entretém enquanto o marido se arranja, ou a esposa acaba de contemplar cada centímetro do maquinão novo? Eles podem demorar um bocado e eu não sei se consigo encher chouriços durante muito mais tempo. Desenrasco-me a inventar, mas calma lá.

Já experimentaram gritar: "a comida está pronta!"? Dão-lhes uma barra ou um jajão, como se diz hoje em dia. Talvez o seu apetite fale mais alto e ele largue o raio da maquilhagem e ela o maldito carro. Assim já podem parar de me aturar. Não, esqueçam. Não se dêem ao trabalho, não vale a pena. Dá tanta preguiça levantar o rabo da cadeira e de certeza que continuar à procura de parvoíces engraçadas na internet sabe muito melhor.

Enfim, já me cansei. Podia esforçar-me para arranjar uma conclusão decente e bem pensada, mas... eh, pá, não me apetece! 

18
Jan19

Clichês

Olavo Rodrigues

Ah, os clichês! A típica história de amor entre duas alma-gémeas inseparáveis ou a amizade de aço de dois grandes amigos. O triunfo do bem sobre o mal, a atracção dos opostos, entre outros. Mesmo que estes modelos se repitam bastante na arte de tecer histórias, nunca são dispensáveis. A histórias não são o mesmo sem, pelo menos, um deles. Clichês em demasia são enfadonhos e tornam o enredo previsível; contudo, a ausência destes retira às histórias a razão pela qual o público as consome: a identificação com elas. 

Os clichês têm a capacidade de dotar as personagens de características tão humanas como as nossas, portanto, queremos estar com elas para o bem e para o mal, quase como se o filme ou o livro fosse um sonho que nós também gostávamos de viver. E, no fundo, vivemo-lo, daí não largarmos o ecrã ou não conseguirmos parar de virar as páginas. 

Às vezes dou por mim tão entranhado na história, que me esqueço do mundo que me rodeia, pelo que, quando acordo, nasce em mim uma sensação mista de estranheza e de familiaridade, como algo do estilo: «eu conheço isto, mas como é que vim aqui parar novamente?». 

Há imensos clichês, tão variados e com tantas funções como há géneros de histórias. Existem os amores e as amizades profundos referidos acima, os quais se relacionam com o facto de o próprio espectador ou leitor amar de paixão os que lhe são queridos, portanto, o resultado feliz de uma discussão bem feia ou, a superação de um grande obstáculo em conjunto, não revelam mais do que o reflexo das emoções e dos desejos do público. 

Atrevo-me inclusive a dizer que este é o clichê mais popular, pois transcende o mundo das histórias. Vemo-lo na música, na poesia, em desenhos, etc. Para além disto, existem também várias ramificações associadas a esta bomba de comércio, como o homem que corre atrás da sua amada até ao areoporto para a convencer a desistir da viagem ou para ir com ela, pois não suporta viver sem a mulher dos seus sonhos; ou então, o encontrão que faz com que dois desconhecidos deixem cair os seus pertences e criem uma química mal troquem o primeiro olhar. 

Acrescentemos também a escolha errada de um parceiro egoísta e abusivo que, no início, é um anjo, mas que depois acaba por se revelar um monstro enquanto o amor verdadeiro esteve sempre lá para o protagonista cego e equivocado... enfim, a lista nunca mais termina!

Nos enredos em que há porrada de criar bicho, há sempre o durão que dá uma valente trepa a mais de dez adversários, pondo o público ao rubro e cheio de adrenalina. Aqui nota-se o gosto talvez algo primitivo pela superioridade física e pela pancadaria. Atenção, eu não sou diferente. Desde que não seja muito explícito, gosto de assistir a um bom combate bem coreografado. Se envolver superpoderes, então, ainda melhor. 

Também considero justo confessar que o estilo fanfarrão do durão, que é complementado por uma piadola ou outra em relação ao adversário, dá prazer. É engraçado percepcionar como a ficção pode alterar, diametralmente, um ponto de vista. Se fosse real, as pessoas com certeza não lhe achariam tanta piada. 

O clichê cómico do: «o que pode correr mal?». Quem é que não gosta deste? O ser humano é, de facto, um bicho  ruim. Quando se ouve uma personagem atirar isto, já se sabe que surpresas agradáveis não há-de ter, o que se traduz no riso que a desgraça alheia provoca. Só tem graça quando acontece aos outros, mas não acontece só aos outros, essa é que essa! Na vida real também se acha piada a isto desde que a pessoa a quem ocorre o azar não fique muito magoada, dado que, nesse caso a reacção imediata é: «uuuh! Até me doeu a mim!».

Ainda no reportório do riso, não podemos ignorar os protagonistas do humor: os palavrões e o sexo. Não compreendo, juro que não compreendo, o porquê de nós acharmos tanta piada à especialidade de Vénus. É uma coisa perfeitamente natural desde que existem seres sexuados na Terra. Rirmo-nos do sexo devia fazer tanto sentido como rirmo-nos de alguém a comer ou a respirar.

Quero dizer, até faço uma pequena ideia. A humanidade adora divertir-se com o que é proibido e, por esta razão, inclui, numa actividade cujo único propósito é entreter, elementos que «não devia» praticar nem dos quais devia retirar prazer. É tal e qual como o bicho da gula melgar uma criança para esta comer um pedacito de chocolate antes da refeição e a mesma obedecer sem hesitar. Sabe que não deve fazê-lo e, que se for apanhada, vai levar um ralhete dos pais, mas parece que o prazer do chocolate é intensificado pela noção do perigo.

Quanto ao sexo e aos palavrões é a mesma coisa com a pequena diferença de que, em relação ao primeiro, já não se leva ralhetes independentemente do que se decida experimentar. Quero dizer, ao menos em pleno século XXI já não devia ser assim, mas como o rótulo de tabu que se atribui ao sexo ainda está muito enraizado na nossa sociedade, o prazer continua a ser intensificado quando se faz humor sobre ele. 

Relativamente ao segundo, não passa tudo de uma grande hipocrisia, visto que toda a gente pragueja e todos criticam quem o faz... depende do contexto, vá...

Eu adoro (mais ou menos) que nos momentos de tensão em que, por exemplo, uma bomba está prestes a explodir, o herói consiga cortar o fio certo no último segundo em quase todas as histórias. Se não me engano, creio que só vi um filme no qual o relógio parou no dois. Lamento; porém, não me lembro de qual é. 

Este clichê já não me entusiasma muito, pois como é muito repetitivo já não tem o efeito desejado. O consumidor já sabe que a probabilidade de aquela personagem resolver o problema é quase certa. A sensação de alívio que o ser humano tanto preza não brota, dado que nem sequer chega a haver tensão. É bom tentar criar suspense, mas não creio que os clichês sejam as ferramentas mais adequadas.

Talvez uma boa solução fosse deixar a bomba rebentar mesmo e dar a entender a morte do herói quando, na verdade, seria um falecimento falso e o bem-feitor apareceria inesperadamente vivo. Esta ideia também não é inédita, mas ao menos não é tão comum. 

As típicas histórias de superação também são, a meu ver, óptimas para viver com intensidade. O homem ou a mulher (normalmente é o homem) que quase arruína ou chega mesmo a destruir uma relação de longa data devido à sua estupidez e que, no fim, se torna num ser humano melhor. 

Ou, então, o marrão que sofre abusos dos outros na escola, os quais são, regra geral, os mais populares. Na minha opinião, apesar de este último ser giro, creio que é um dos clichês mais gastos do entretenimento, sendo, por isso, um pouco cansativo de consumir quando se vê muitos filmes para adolescentes. Agarrado a este traço característico das películas juvenis, vem também o contraste entre a miúda gira popular e, o rapaz que vai à baliza a torto e a direito, por quem ela acaba por se apaixonar, porque percebe que o ex-namorado popular sempre havia sido uma besta e que tinha muito mais músculos que cérebro. Contudo, estas são as tais ramificações do clichê do romance. 

Uma observação: já repararam que os populares normalmente só se encaixam em duas categorias? Os rapazes costumam ser jogadores de futebol americano e as raparigas são as clássicas líderes de claque. Por alguma razão, Hollywood mostra uma aversão a actividades fora do âmbito desportivo, visto que, quando os moços não jogam futebol americano, dedicam-se ao básquete. Não há outro tipo de populares (de ambos os sexos) também apelativos, como modelos ou músicos. É a mesma coisa que nas telenovelas portuguesas os miúdos só irem ao colégio, não há cá escolas públicas. 

Aliás, quando se fala de histórias de amor, juvenis ou não, ou de telenovelas, podemos lembrar-nos de clichês como os mágicos tiram aquelas fitas enormes da camisola ou do bolso, não é? Isto deve-se ao facto de este estilo de entretenimento se basear principalmente nos tais sentimentos humanos com que todos nos identificamos, o que acaba por, na minha opinião, ser enjoativo, pois existe uma produção massiva do mesmo modelo, como se fossem produtos de fábrica.  

O único clichê que quiçá não seja bem aceite por uma parte significativa das pessoas é o facto de, por norma, só se fornecer o privilégio do holofote às carinhas larocas. É sabido que a esmagadora maioria dos actores que logram aparecer na ribalta são bem-parecidos ou, se não o forem, têm algum tipo de charme inerente. 

É raro encontrar actores de cinema ou de televisão que não sejam fisicamente «chamativos», digamos assim. Caso não o sejam de facto, muito provavelmente, isso deve-se aos requisitos da personagem e não à suposta escolha completamente imparcial e direccionada para o talento. 

Isto funciona, claro, porque o público gosta de ver caras bonitas e está muito bem, pois é uma característica humana, mas quando se trata do ganha-pão de alguém, que, apesar da aparência, até pode encarnar a personagem de uma maneira estupenda, esta selecção parcial prejudica certamente esse alguém que também adora ser actor e que gostava de viver da representação. Apelo à consideração pelas pessoas que não nasceram com a vantagem da beleza física. 

Já agora, a defesa da beleza interior em detrimento da exterior é também ela um clichê. 

Em suma, eu percebo que, nalguns géneros em particular, seja difícil ser original, porque os de ficção realista, por exemplo, tal como o próprio nome indica, baseiam-se na realidade, portanto, não há muita coisa para alterar ou, pelo menos, no que diz respeito à dimensão física da história. A psicológica e a social podem ser mais bem trabalhadas com um pouco de imaginação, dado que a mesma coisa contada de uma maneira diferente, bem como criativa, tem imediatamente outro encanto e outra beleza. 

Por outro lado, volto a bater na tecla da dificuldade quando se torna claro que a qualidade de uma obra é passível de ser distorcida pela quantidade das suas semelhantes. Uma telenovela, por exemplo, talvez até tenha potencial; no entanto, como já é a milionésima consecutiva, uma boa parte do público já não consegue destrinçar o que a torna um pouco diferente das outras e boa para dispensar algum tempo a vê-la. O problema não é o formato, mas sim o excesso. Seria como um amante de pudim só comer esse doce para o resto da vida. Para além de, certamente, não durar muito tempo, também iria fartar-se. 

Quando era mais novo, cheguei a pensar o mesmo das séries cómicas da Disney e do Nickelodeon. Há que existir o equilíbrio entre os clichês e a originalidade, sendo também complementado com variedade. É isso que torna as histórias tão fascinantes, pois são como as pessoas: têm tanto de idêntico como de distinto. 

A propósito, eis um magnífico garrafão de azeite:40020.jpg

 

 

 

 

12
Jun18

Da Eutanásia

Olavo Rodrigues

Eu sei que a decisão sobre a eutanásia foi tomada já há algum tempo, mas eu tenho de pôr isto cá fora: 

Apesar de haver dois lados opostos quanto à mesma (eu sou a favor), o que me revolta na pura acepção do termo é que meia dúzia de gatos pingados no parlamento achem que podem decidir, sem o nosso consentimento, sobre um assunto desta natureza. Quem é que eles pensam que são para impor o quer que seja às vidas que não lhes pertencem, ao povo como um todo, que deve fazer uso da vontade própria que lhe tem sido retirada pouco a pouco? Uma prova clara disso é precisamente este tema. 
Quem tem direito a gerir a vida de alguém é a própria pessoa e, num momento como este, em que se debate acerca da vida do POVO, nós devíamos ter uma palavra a dizer.

30
Jan18

Sete Dias Consecutivos de Escrita - The Write Practice

Olavo Rodrigues

The Write Practice  é um sítio fundado por Joe Bunting, o qual é um escritor que criou esta mina de ouro para qualquer amante das palavras que, deseje brotar no mundo editorial com qualidade, ao mesmo tempo que melhora as suas competências. De vez em quando surgem palestras via internet, no sítio há 1716 artigos e exercícios sobre escrita criativa e a comunidade é bastante unida, dado que os seus membros estão constantemente a apoiar-se de forma mútua ao publicar textos seus e ao receber opiniões dos outros membros sobre os mesmos. 

Já li alguns artigos e já assisti a uma palestra e devo dizer que estou bastante satisfeito, portanto, recomendo-vos vivamente que dêem lá um saltinho! Ainda que não queiram tornar-se em escritores profissionais, podem sempre aprender imenso e melhorar o vosso trabalho na mesma. 

Na semana passada houve um desafio proposto a todos os onze milhões de membros da comunidade: durante uma semana era necessário escrever, no mínimo, mil palavras. Podíamos escrever o quer que nos ocorresse: um capítulo de um livro, um conto, um poema, um evento da vida real, entre outros. Tínhamos era de chegar às mil palavras. Eu cá, que adoro desafiar-me sobretudo em relação à escrita, aceitei o repto de imediato.

No início foi, de facto, difícil, pois não estava habituado a escrever tanto por dia e, muito menos, por semana. Contudo, a sensação que retirava de todas as vezes que me sentava à secretária, fosse para redigir no papel ou no computador, era magnífica, entusiasmante e tão libertadora! A vontade de me envolver na minha criação e de me deliciar com ela estava mais activa do que nunca e, quanto mais escrevia, mais queria continuar, porque a adrenalina também alimentava a paixão.  

Com o tempo foi sendo cada vez menos cansativo atingir o mínimo proposto pelo desafio, o que provava que o objectivo deste - forjar um hábito de escrita sólido e produtivo - estava a ser atingido. Só falhei um dia e, mesmo assim, quase lá cheguei. É tão triste morrer na praia! 

Embora tenha faltado ao compromisso uma vez, aprendi uma boa lição. Naquele dia o entusiasmo tinha caído um pouco; isto porque no dia anterior havia tido um bloqueio horrível durante a maior parte do tempo e só havia desemburrado mais para o fim. Tal deixou-me algo ansioso, estado que tenho de começar a evitar nestas situações, dado que é suposto divertir-me e não ficar afectado de maneira negativa por elas. 

Às vezes apercebia-me de que estava a pensar em escrever, não por gosto, mas sim por querer cumprir o desafio. A questão é que, apesar de ser bom desfrutar de uma tarefa nova, não devemos permitir que esta se imponha à nossa diversão e à nossa saúde. Mais importante ainda: é necessário levar em conta que não há ninguém melhor que nós para estabelecer o nosso mínimo, reflectindo assim em que patamar estamos preparados para alcançar.

O das mil palavras parecia-me perfeito e consegui, inclusive, ultrapassá-lo na maioria das vezes; no entanto, como o quinto dia fora bastante cansativo a nível mental devido às minhas sucessivas tentativas de desenvolver um texto fluído, no sexto não tinha uma vontade tão enérgica de escrever, pois sentia que precisava de me desligar daquilo durante um tempo. Mais uma vez, lá para o fim consegui desenrascar alguma coisa com a pica novamente no auge; contudo, a meia noite chegou antes de que me pudesse salvar, ficando desta forma com 949 palavras. Mais um parágrafo e tinha-me safado. 

Aprendi que dedicarmo-nos ao de que gostamos é tão importante como reconhecer limites e apreciar a diversidade. Nem sempre estamos a 100% para dar o nosso melhor e não faz mal de quando em vez não ter disposição para aquilo, considerando que, enquanto seres humanos, possuímos gostos vários. Isso não faz de nós - neste caso escritores - obrigatoriamente preguiçosos ao contrário do que eu pensei de mim próprio naquele dia. 

A meta principal já foi alcançada. Ainda que o desafio já tenha acabado, tenho escrito todos os dias. Não necessariamente mil palavras, mas o que importa é não parar de exercitar o bichinho para que fique bem forte. 

Volto a insistir na sugestão de se inscreverem no The Write Practice. A equipa de lá está constantemente a trabalhar para nos ajudar, seja em que ocasião for. O Joe dava sempre óptimos conselhos nos «e-mails» que continham a ligação para submetermos a quantidade de palavras do dia. Vão por mim: vale mesmo a pena. 

 

25
Jan18

Porque Decidi Ser...? (1)

Olavo Rodrigues

BLOGUISTA:

 

Este blogue foi criado no dia 4 de Abril de 2015, logo de madrugada, à uma e tal da manhã. De facto, não percebo por que razão não me ocorreu criar este cantinho mais cedo - bem como o outro, que nasceu em Novembro do mesmo ano - dado que descobri a minha paixão pela escrita por volta de Setembro de 2010.
Na verdade, a ideia foi quase sugerida. Tinha visto algumas horas antes uma notícia sobre alguns bloguistas que tinham obtido uma estabilidade financeira a partir dos seus espaços digitais. Milhares de pessoas visitavam-nos sedentas de ler os seus conselhos e pensamentos sobre o quer que fosse: moda, vida pessoal, reflexões, entre outros. E eu percebi que também podia agarrar aquela oportunidade.
Antes de continuar, gostava de esclarecer que a fama e o dinheiro nunca foram os motores principais da minha produção escrita. Acreditem que se o que eu quisesse mesmo muito fosse enriquecer, teria tentado a minha sorte no YouTube, que é um mundo com muito mais adeptos.
Quem cria um blogue ou quer entrar noutra área do universo das palavras, não vai à procura de uma fortuna milionária. Pelo menos, este é o meu ponto de vista. Desejar e conseguir viver da escrita não é necessariamente a mesma coisa que nadar em dinheiro. É dificílimo ganhar o pão do mês escrevendo, quanto mais ficar podre de rico graças a isso.
Fama também não se tem muita de certeza, pois «ninguém liga» aos escritores. Quem capta a atenção das grandes massas são os actores, os futebolistas, os cantores e, mais recentemente, os youtubers.
Toda a gente sabe dizer o nome de um actor ou outro que tenha visto num filme, mas experimentem perguntar o/s do/s guionista/s. É bem provável que o vosso interlocutor não o saiba. E eu também não por muito que tente memorizá-lo quando começa a película, mas depois de a ver, a identidade do/s autor/es escapa-me.
Não obstante tudo isto, é importante ressaltar que nem todos os elementos dos grupos acima mencionados são ricos e famosos e que muitos deles são bons nos seus campos sem o foco do holofote. Hoje em dia existe o estigma de que os youtubers, por exemplo, são todos uns preguiçosos com falta de massa cinzenta, que querem ganhar a vida a fazer parvoíces vazias.
Não é inteiramente verdade, há youtubers de óptima qualidade que lutam com fervor pelo seu lugar e alguns já lá estão. Atribuir-lhes essa ideia de qualidade, bem como a qualquer outro tipo de entertainer, parte, claro, da óptica de cada um. Eu só disse que o YouTube é um bom sítio para enriquecer, uma vez que lá quase tudo pega com facilidade. Há canais de todos os géneros e mais alguns; contudo, não se conquista nada sem paixão nem dedicação genuínas, pelo que alguém que só se interesse pela futilidade de querer somente ser rico e famoso não chega muito longe. O público nota essa falsidade e desonestidade para com ele. Por muito palerma que o conteúdo de alguns entertainers seja, eles têm sucesso, porque demonstram paixão.
É precisamente isso que eu pretendo pôr nos meus textos, visto que ser bloguista se assemelha a ser escritor. É uma forma de publicar o nosso trabalho, exige um compromisso com os leitores e abre a porta para aquilo que imensos produtores da arte das letras ambicionam: receber dinheiro para escrever. Mas querermos esse sonho não é errado desde que definamos com sensatez quem queremos entreter: nós próprios e o público ou apenas o nosso ego?
Em suma, eu adoro ter blogues, porque são uma preparação para o salto com que sonho dar mais à frente na minha vida. Porém, mesmo que um dia esse desejo se concretize, os meus blogues nunca morrerão. Hoje em dia não quero outra coisa.
Já ouvi dizer que o mundo editorial pode ser bastante duro, portanto, aqui terei sempre dois cantinhos à minha espera para eu usar e abusar da minha liberdade de expressão como tenho feito até ao momento.
Porque escolhi o Sapo Blogs? Bem... calhou. Foi literalmente algo do estilo: «olha, vai este». E deixar o meu instinto decidir logo após ter pesquisado «blogs» no Google foi, sem dúvida, uma excelente escolha.
Adoro esta comunidade, pois é muito dinâmica e unida, dando-me a oportunidade de contactar pessoas incríveis e fascinantes. Para além disso, é o máximo que a equipa da plataforma esteja constantemente a esforçar-se para tornar esta biblioteca cibernética num espaço cada vez mais diversificado e cómodo.

 

 

 

 

 

 

 

 

Sim, sim, já acabou por agora. Passem cá no dia 31 de Fevereiro de -39, que há mais.

 

22
Jan18

O Preço de Ser Conceituado

Olavo Rodrigues

Ontem estava eu a sonhar com a possibilidade de um dia vir a ser um bloguista ou um escritor conceituado e, o mais importante de tudo, inspirador. No entanto, logo a seguir ocorreu-me o lado negro dessa realidade, pois nesse patamar  tudo é muito mais impessoal.

Quando pensamos em alguém cujo trabalho é admirado, lembramo-nos de como deve ser incrível a sensação de imensas pessoas dizerem-nos que as fazemos sentir melhor à nossa maneira, nem que seja por breves momentos, mas a realidade mais triste é que, dificilmente, o autor conseguirá agradecer-lhes bem, com o mesmo carinho, com toda a atenção que os fãs merecem. 

Isto porque se estivermos a falar de alguém com uma quantidade de seguidores verdadeiramente colossal, percebemos que é impossível, para qualquer ser humano, entrar em contacto com milhares ou com milhões de admiradores individualmente. Tal deixa a sua marca de frustração. Pelo menos, eu sentir-me-ia assim. 

Num espaço pequeno como esta plataforma de blogues é mais fácil, uma vez que, de acordo com o que eu tenho testemunhado, os comentários dos grandes blogues nunca passam da casa das dezenas, permitindo assim ao autor manter uma troca de ideias agradável e estimulante com quem o segue.

Isso é o máximo! Há lá melhor coisa que ter uma interacção mais directa com as pessoas em causa? Dizer-lhes: «agradeço-te imenso por me apoiares tanto. Acompanhares-me significa mesmo muito para mim e cada comentário teu ajuda-me a crescer mais um pouco. Eh, pá, a sério, obrigado.»

Como o entretenimento audiovisual tem mais adeptos, esta conversa não é possível quando se trata dos youtubers da ribalta. O Felipe Neto, por exemplo, recebe, de quando em vez, presentes dos seus fãs, os quais são dotados de uma criatividade extraordinária. É um prazer enorme ver do que é que excelentes mentes escondidas se lembram para agradar ao seu ídolo. E para além de agradecer, com intensidade, todo o apoio que recebe sempre que alcança uma nova conquista, esta estrela da internet também faz questão de mostrar uma profunda gratidão pelas prendas. 

No entanto, o Felipe Neto não faz a mais pálida ideia de quem lhe enviou aquilo e embora a sua gratidão seja talvez sincera, eu creio que o desconhecimento da pessoa por trás daquele acto de carinho torna a situação mais impessoal e, portanto, também mais fria. Normalmente - agora abrangendo todas as grandes celebridades - estes influnciadores agradecem a um colectivo, pois não podem, através das câmaras, ser omniconscientes e ter noção de quem é cada indivíduo que os segue.

Aqui também é comum não termos uma ideia exacta de quem são os nossos subscritores; porém, só o facto de se apresentarem num número muito menor e de termos mais capacidade para assimilar os seus nome e fotografia - ainda que o primeiro possa ser falso e que quiçá o segundo nem sequer tenha características humanas - já fornece outro sabor à interacção com eles, outra profundidade. Eu defendo que este privilégio deve ser bastante valorizado. 

No fundo, quase podemos dizer que o YouTube, por exemplo, é uma espécie de metrópole gigante como Nova Iorque onde os habitantes estão muito ocupados com a sua vida para terem conversas menos impessoais com a pessoa ao lado e que o Sapo Blogs é - não bem uma aldeia - mas sim uma pequena vila mais familiar, apesar de também existir alguma impessoalidade. 

Há mais desvantagens em ser imensamente conceituado, tais como alguns fãs sem noção dos limites descobrirem o número de telemóvel do seu ídolo e ligarem-lhe. Imagino que seja deveras estranho atender alguém que nos adora, mas que nós não conhecemos e que possui o nosso contacto telefónico sem a nossa permissão. Outra dor de cabeça causa a imprensa - cor-de-rosa ou não - que corre atrás dos famosos mal os mesmos dão um passo. 

Mas este já é o tópico da falta de privacidade, que não é o protagonista desta crónica. 

Enfim, não é possível ter o melhor de dois mundos. 

 

 

26
Jun17

O Cavalheirismo (Imposto) na Actualidade

Olavo Rodrigues

O cavalheirismo sempre foi um conjunto de convenções sociais que levam os homens a adoptar determinadas atitudes de gentileza para com as mulheres como uma forma de demonstrar educação, afecto e gosto em agradar à pessoa de quem gostam. Assim como as mulheres tinham e ainda têm obrigações sociais, as regras do cavalheirismo eram as dos homens. 

No entanto, os tempos mudaram e as superficialidades sociais, felizmente, têm vindo a cair. Os direitos de cada género têm-se aproximado cada vez mais, o que para o gáudio dos progressistas é uma excelente notícia. Como é do conhecimento geral, o movimento que tem providenciado esta evolução de mentalidade é o feminismo, ao qual, hoje em dia, aderem mulheres e homens. Mas o que quer dizer ser feminista? Na minha percepção significa defender a igualdade absoluta entre os dois sexos, continuando deste modo a erradicar formas de pensar antiquadas e, é precisamente acerca deste tópico, que quero escrever. 

Já tinha abordado um tema relacionado com o machismo, mas agora é a vez do seu antónimo cujo nome não sei, já que "feminismo" é a definição do movimento progressista. 

Eu concordo com a existência do cavalheirismo desde que não seja imposto. Do meu ponto de vista, há uma diferença entre o cavalheirismo e a subjugação. Vamos a um exemplo:

Há uns dias estava a jogar Habbo, um jogo de convívio virtual, e encontrava-me na companhia de uma rapariga. De repente, ela disse-me:

- Tenho sede. - Não me ocorreu nada melhor e mais acertado para lhe responder que:

- Bebe água. - Frustrada, atirou:

- Eu esperava que você fosse pegar para mim, mas já vi que não você não é um cavalheiro. Tchau! - E foi-se embora.

Num jogo virtual é tudo muito teatral sem dúvida, contudo, estou em crer que esta atitude pode ser transposta para a vida real, visto que existem mulheres que pensam assim, que acham que os homens devem certas mordomias ao sexo femininio por uma pura e simples questão de educação da parte deles. Todavia, se se prega que ambos os sexos têm os mesmos direitos e as mesmas obrigações perante a lei, bem como em relação um ao outro, então, alguns hábitos do sexo masculino que agradam às mulheres não deviam deixar de ser praticados enquanto obrigações?

Aquela rapariga quase me disse: "tu deves-me esse favor pelo simples facto de eu ser uma senhora". Se eu tivesse acedido ao que ela queria sem hesitar, na minha mais sincera opinião, não estaria a ser educado, mas sim demasiado submisso. Só estaria a ser simpático se eu tivesse ido buscar água para mim (embora virtual) e lhe tivesse levado um copo também. Se bem que perguntar-lhe se o desejava seria ainda mais adequado. 

Uma das normas do cavalheirismo imposto que menos me faz sentido é a que dita que os homens devem pagar a conta das refeições. Não concebo que uma pessoa acredite que alguém é obrigado a oferecer-lhe algo. Porque haverá de ser assim? Quando alguém dá um presente, fá-lo decerto por iniciativa própria e não porque o/a receptor/a lho exigiu.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado no contexto do cavalheirismo. O homem não deve nada à mulher e, ainda para mais, apenas por ser uma mulher, portanto, esperar que ele pague a conta não é um apelo à sua boa educação, mas sim um acto de egoísmo

O que a meu ver é correcto e, isso sim, é o homem oferecer a refeição somente porque o seu coração lhe diz que quer fazê-lo, porque adora a pessoa com quem está a partilhá-la, porque nada o poria mais contente que arrancar-lhe um sorriso com esse gesto de amabilidade. Pretender parecer bem socialmente só vai aumentar a sua ansiedade no encontro e provocar-lhe um sentimento de culpa, caso não consiga cobrir todo o gasto. 

O único motivo para se dar o quer que seja tem de ser o de gostar de agradar. Deve-se pagar uma refeição a uma companheira romântica com a mesma disposição com que se paga a um amigo ou a um familiar. Isto é que é cavalheirismo genuíno e contra tal não tenho nada a argumentar, muito pelo contrário. 

Aliás, defendo também que se um homem nunca quiser pagar nada, que se não fizer o mínimo esforço para mostrar alguma simpatia (não necessariamente material) e não mimar a parceira de vez em quando, então, provavelmente, não falhará apenas no que diz respeito ao cavalheirismo, mas também no campo emocional, fazendo a mulher sofrer com certeza. 

Eu tenho noção de que o grosso do sexo feminino não pensa desta forma, pois, afortunadamente, as mentalidades estão a evoluir. Hoje em dia já existe de tudo, incluindo pessoas do sexo feminino a pagar as contas por completo ou a meias, o que não está nada mal. Corrijam-me, por favor, se estiver equivocado, contudo, há até mulheres que se sentem ofendidas quando se lhes oferece a sua parte da conta coberta, dado que o interpretam como uma insinuação de que dependem do dinheiro do homem. 

 Ainda assim, achei relevante escrever acerca deste tema, visto que, como em todos os movimentos, o feminismo tem bons e maus seguidores. Há mesmo extremistas que pretendem a submissão total do sexo masculino. No caso aqui descrito, não se chega tão longe. Não penso de todo que as mulheres que crêem que é responsabilidade do homem pagar a conta sejam, obrigatoriamente, tiranas sem consideração, porém, se há uma mudança de mentalidade a decorrer, há que aceitar tudo o que a mesma envolve. 

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