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Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

10/06/16

O Conceito de Arte Está a Mudar?

Apesar de todos os seus defeitos, a humanidade também concretizou façanhas notáveis ao nível do seu intelecto, que felizmente, ainda não é totalmente investido no armamento. A ciência e a arte, por exemplo, demonstram como a nossa espécie pode ser bem-sucedida, quer na resolução dos problemas que nos rodeiam, quer na reflexão dos nossos pensamentos e actos ou então, no simples desejo de divertir.

As novas tecnologias, nomeadamente a "internet", trouxeram a toda a gente um acesso muito mais amplo à exposição do seu talento pessoal, independentemente do que for. No entanto, há que considerar que é também por ser possível uma maior aparição, que existem, aos olhos de muitos, as produções "vazias". Muitos ramos da arte têm sido enchidos em abundância com este tipo de conteúdo. 

Gostava de abordar a música em particular, não só por ser bastante consumida por todos os seres humanos (pelo menos, eu ainda não conheci ninguém que não a apreciasse, mas é provável que haja), mas também porque representa a vivência de emoções vindas do fundo da alma, esta arte carrega-me nos braços como uma mãe a embalar um bebé.

Considerando gostos sem atacá-los ou pelo menos agressivamente, a meu ver está a haver uma sobrevalorização da música do bailarico.  Apelido assim os estilos de música cujo único propósito é entreter, que estão isentos de transmitir qualquer tipo de mensagem intelectual ou sentimental. 

Hoje em dia ouve-se com demasiada frequência canções relacionadas com sexo, que possuem demasiados palavrões e noutros casos, coisas sem qualquer sentido. Quero alertar que não estou a condenar os temas em si, mas a forma como são trabalhados. Todos eles são importantes, até porque "lógico" nem sempre é sinónimo de "divertido".

O problema é que cada vez mais a música se distancia do seu verdadeiro propósito. As canções da actualidade são amiúde baseadas em mulheres esculturais expostas de uma maneira tão ordinária como as palavras que descrevem o que o sujeito «poético» quer delas. São também extremamente repetitivas - o cantor passa dois ou três minutos a repetir a/s mesma/s frase/s - e acima de tudo, muitas das vozes carecem de qualidade. Algumas são minimamente afinadas, mas não servem para cantar. 

E agora respondem-me: "até parece que não gostas de ver essas mulheres".

Sim, é verdade, eu gosto de ver mulheres bonitas, contudo, não neste contexto. Malta. a música é uma arte dedicada à audição, o que é contraditório, dado que a parte sonora aparenta estar a ser despromovida a complemento. 

Uma coisa é certa: mesmo nas produções consideradas "comestíveis", existe o problema da discriminação relativa ao aspecto físico. Normalmente, são as pessoas que nascem com este dom que obtêm a atenção das câmaras, tal não vai mudar tão cedo. 

É claro que a imagem é sempre necessária, mas transformem-na em poesia. Escolham sítios bonitos nos quais a acção da história cantada possa decorrer saborosamente, ponham os actores a interagir uns com os outros de uma maneira romântica se for uma canção sobre o amor, ou se for apenas para curtir, simulem uma festa de criar água na boca, mas uma produção feita a partir de palavras como "mesa" ou "cabide", misturadas com uma batida, não são um trabalho criativo. 

A arte, não importa o tipo, é a capacidade de um determinado indivíduo se superar a si mesmo em cada concepção, espalhar um pouco de diversidade aqui e ali pelo mundo fora. É comunicar-se com os demais e deter o avanço do relógio, nem que seja por breves momentos para fazer os outros pensar: "o que diabo é isto?" Ou então: "bem jogado, ainda ninguém os teve no sítio para dizer ou fazer isso!" .

Ou pode ser simplesmente uma gargalhada revigorante com a missão de ressuscitar a alma depois de um dia da treta. Ao colocarem tochas em locais totalmente escuros, os artistas arrecadam mais uma vitória para a humanidade, nem que tenha sido apenas pelo esforço. Ninguém os pode criticar, eles ao menos, foram lá.

A arte é a prova viva e palpável de que os sonhos não habitam só na imaginação. Trata-se de uma vivência inexplicavelmente recompensadora. 

E agora vem a parte cinzenta: são estes estilos de música arte? Pelo que referi há uns parágrafos atrás, a minha opinião é perfeitamente perceptível, porém, não é minha intenção afirmá-la como verdade absoluta. 

Numa aula de História, a minha professora mencionou uma premissa que me fez reflectir: um projecto artístico é todo aquele que nunca foi identicamente concebido. Se é inédito, é provável que seja arte, pois nunca ninguém teve uma ideia semelhante. São muitos os criativos incompreendidos que mais tarde são idolatrados por milhares ou mesmo milhões. Os da geração de Fernando Pessoa são um exemplo.

Jamais em tempo algum alguém se lembrou de desatar a dizer "´tá tranquilo, ´tá favorável, 'tá tranquilo, 'tá favorável". Nem: "um pente é um pente, é um pente, é um pente...". Citei dois exemplos do funk, mas o mesmo se aplica a outros estilos marginalizados como o kuduro, o kizomba, a electrónica, etc. 

Na minha óptica, há que ter em conta que um dos elementos principais das criações artísticas é a subjectividade. Muitas das pessoas vivas na primeira metade do século XXI tentam fugir de músicas assim como o diabo da cruz, mas quem sabe, na segunda parte ou no século seguinte, toda a gente pode ser atraída por elas como eu pelo chocolate. É possível que seja inclusive uma moda passageira.

Há que existir espaço para todos os gostos e artistas. Eu confesso que caio imensas vezes na tentação de insultar as músicas do bailarico sempre que são transmitidas na minha escola. Deus do Céu! E como aquela escola gosta daquilo! Felizmente neste sentido, fico contente por o Secundário estar a atingir o seu prazo de validade.

Não obstante, estou bem tramado se na faculdade a preferência musical for similar. Vou ter de aprender a respeitá-la por muita confusão que me faça.

Apesar de toda esta conversa, a razão base que me conduziu a esta crónica é o desequilíbrio. Eu não gosto de kuduro, kizomba, funk ou outro tipo de música semelhante, mas lá por haver apreciadores dos ditos, não significa que estes os oiçam 24 horas por dia. Eu sou assim, por exemplo, gosto de ouvir um outro tema cantado pelo Quim Barreiros nas festas da minha terra, todavia, não é do meu agrado passar a tarde a ouvi-lo no quarto.

Honestamente, acredito que algumas pessoas nem sequer sabem o porquê exacto de gostarem daquilo. Gostam porque sim e todos nós temos esta particularidade. 

O cenário que realmente mexe comigo é o de se encontrarem tantos Joãos Só, Ruis Veloso, Brians Adams e Freddies Mercury por aí que dão o litro para serem descobertos e não conseguem devido a uma massa gigantesca de indivíduos que já não se importam nada com a qualidade da voz ou da letra da música. Canções lindíssimas de género idêntico a "Vou a Marte", "Anel de Rubi", "Summer of Sixty Nine" e "We Are the Champions" estão a perder a batalha.

Este fenómeno relaciona-se com a identificação que os jovens, principalmente, sentem em relação ao que escutam. Neste período da História testemunhamos o atrevimento do sexo, que retira à velocidade da luz, o rótulo "tabu" da testa. É perfeitamente normal, os comportamentos percorrem sempre os dois pólos antes de entrarem nos eixos.

Com este texto, que já assumiu uma dimensão estratosférica, pretendo apelar à diversidade, o equilíbrio é imprescindível! Nem tudo muito sério, nem tudo muito esbardalhado. Mas a minha opinião vale tanto como a de qualquer outra pessoa, por isso, o mais plausível é ganhar as mesmas, quase de certeza que não retirarei outro proveito senão desanuviar a alma. Ah! Ah! Ah!

O que é que vocês acham? O conceito de arte está a mudar? Eu cá não faço a mais pálida ideia. 

 

 

 

 

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