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Toca do Coelho

Um espaço para o meu apetite omnívoro.

Toca do Coelho

Um espaço para o meu apetite omnívoro.

24.Mar.24

A Morte de Deus em 2024



Deus está morto. Deus permanece morto e nós matámo-lo. Como devemos consolar-nos, os assassinos de todos os assassinos? O que era mais sagrado e poderoso do que tudo o que o mundo já possuiu, sangrou até à morte sob as nossas lâminas. Quem nos limpará este sangue? Que água há para nos limparmos? Que festivais de expiação, que jogos sagrados teremos de inventar? Não é a grandeza deste feito grande de mais para nós? Não devemos tornar-nos deuses simplesmente para parecer dignos disso?




Friedrich Nietzsche em Assim Falava Zaratustra (1882).



 

Deus está morto em sentido lato: não só no tradicional, como também no ideológico e no pessoal. Não se pode pôr nada no seu lugar: religião, espiritualidade, dinheiro, estatuto, sucesso laboral, amor romântico, sexo, conhecimento, ideologias, filosofia ou pessoas.



O niilismo, da palavra em latim "nihil" (nada), baseia-se na não-crença, pois nada tem um valor especial. Não há um propósito divino nem uma missão especial para o ser humano: o Universo e a criação vão continuar o seu rumo depois de nós, individual e colectivamente, como sempre têm feito, independentemente dos nossos pensamentos, ambições, dúvidas e frustrações — até o próprio Universo também expirar.



 

A vida é esperar morrer.



 

À primeira vista, isto é uma percepção aterradora. Se a existência, em toda a sua complexidade, chega ao absurdo de não fazer sentido algum, porque devia importar-me com ser uma boa pessoa, acumular riqueza, estimular o intelecto ou exercitar o corpo? O fim é o mesmo para toda a gente sem distinção dos seus valores e comportamentos.



Mas ao mesmo tempo, é um conceito bastante libertador. É precisamente isso — nada importa, portanto, nada tem peso. Posso tentar ser e fazer o que me der na real gana e não ficar muito aflito se não o conseguir. Mark Manson, autor do livro A Arte Subtil de Saber Dizer Que Se Foda, apresenta uma ideia interessantíssima no seu canal do YouTube: o pilar da vida é a experimentação, o que tira imensa pressão da vontade de ser bem-sucedido. O insucesso não existe: tudo o que há é informação.



Podemos encarar cada novidade ou provação desta maneira: «vou fazer esta experiência durante X tempo a ver no que dá». Qualquer que seja o resultado, aprendemos sempre alguma coisa nem que seja que aquilo não é para nós e, assim que possível, passamos à próxima experiência. A fluidez, a inconsistência e a mutabilidade da vida são as únicas coisas reais e permanentes.



Vale marcar que uma perspectiva que ajuda a relativizar desejos e frustrações, faz isso mesmo: relativiza-os, não os anula. Afinal, continuamos a viver à nossa escala e, com a correria do quotidiano, poucas são as ocasiões de que dispomos para admirar a imensidão do Universo e a monotonia do trajecto inalterável do tempo. Mas podemos procurar aprimorar a bússola através da inteligência emocional e contando com os nossos valores e engenho. Podemos e devemos ter valores: se não for pela empatia, que seja por uma sociedade sem cooperação estar condenada ao colapso ou porventura ao extermínio da vida e à esterilização do planeta. Esse desfecho prejudicaria inevitavelmente os malfeitores.



Ter desejos como o conforto financeiro, o carinho de uma cara-metade ou o emprego de sonho são comuns e, só por si, são inofensivos. São compreensíveis, naturais e humanos, porque representam segurança, uma âncora. Mas vê-los como objectivos derradeiros pode transformá-los em fontes de infelicidade. Mark Manson refere outro conceito digno de nota. De facto, ter dinheiro traz felicidade. As pessoas com mais dinheiro costumam ser mais felizes que as que têm menos, mas, de uma forma paradoxal, a busca desse dinheiro gera mal-estar. Aplica-se o mesmo à beleza: as pessoas bonitas são mais felizes, a esse respeito, que as que não o são, mas a procura dessa beleza provoca sofrimento.



Assim sendo, enriquecer ou investir na estética podem ser fins bons e alcançáveis, mas devem ser acompanhados de reflexões sobre o que os motiva e o modo como estão a afectar quem os almeja. Será que os métodos de os obter são sensatos? Será que os quero tanto como queria no início ou estou só com medo de abandonar um percurso em que já investi tanto de mim? Agora que estou a progredir neste propósito, até onde quero ir?



No mundo tão dividido, tribal e hostil da nossa época, o que não faltam são deuses, religiões, profetas e doutrinas para todos os gostos. Vivemos um período conturbado, tanto a nível pessoal como colectivo, já que a instabilidade, a insegurança e o medo não desaparecem dos ecrãs nem das vivências. A morte de Deus ajudou-me a apaziguar-me com muitas das minhas questões pessoais, fazendo-me também desenvolver um sentimento de pertença à humanidade no geral e a toda a existência.



Raça: humana

Nacionalidade: terráquea

Religião: indefinida



Adoptei a citação de Nietzsche como minha resolução de Ano Novo e sinto-a como uma das melhores decisões que já fiz a longo prazo. Não tenho a necessidade de concretizar nada de grande destaque ou de prolongar a minha memória após a morte. Passei a viver bem com a minha medianidade.



 


Somos apenas uma raça de macacos avançada num pequeno planeta de uma estrela bastante mediana. Mas conseguimos compreender o Universo. Isso faz de nós algo muito especial.




Stephen Hawking



 

Deus está morto e deixou um quarto vazio só para ti. Mas enquanto o preenches, vai respirando e reflectindo, procurando aprender sobre ti e os outros. Apesar de a vida ser curta, não há pressa.



É apenas um fluxo de informação.