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Toca do Coelho

Um espaço para o meu apetite omnívoro.

Toca do Coelho

Um espaço para o meu apetite omnívoro.

06.Dez.23

A História sem Ecrãs

Às vezes, preferia que a humanidade não se tivesse digitalizado. De facto, vou mais longe e digo que seria melhor se nunca tivesse existido nenhum tipo de ecrã doméstico, incluindo a televisão. A vida parecia mais autêntica e o isolamento era mais difícil, pois as pessoas, por muito introvertidas que fossem, precisavam de se deslocar para todo o lado. Não havendo entretenimento isolador além da leitura, era necessário ou sair ou inventar brincadeiras e jogos em casa.

Um dos divertimentos preferidos de Anne Frank era, com uma amiga, teatralizar passagens da sua coleção de livros favorita, a qual retratava Joop, uma adolescente rebelde (Müller, Anne Frank — A Biografia, 2020). À falta de televisão, redes sociais, plataformas de vídeos, videojogos e influenciadores digitais, o centro do universo dos jovens da primeira metade do século XX eram personagens da literatura juvenil.

Toda as relações humanas pareciam-me, a mim que cresci num mundo eletrónico, mais dinâmicas e com mais nuances. Tenho noção das consequências de uma civilização sem a facilidade da comunicação atual. O círculo social era incomparavelmente menos vasto, a aprendizagem cultural era muito mais limitada e a informação, no geral, estava bem mais contida.

Não sei se o advento dos ecrãs traz mais malefícios ou benefícios, mas pergunto-me se não terá evoluído demasiado? Talvez o seu estado inicial dos anos noventa e dois mil, aquele com que cresci, fosse o ideal, mas não faz sentido pensar num conceito nestes termos. A partir do momento em que surge alguma coisa, não se pode congelar no tempo da mesma forma que não se pode congelar a mudança pessoal de ninguém. Assim que aparece, a coisa ou o ser vivo passa por múltiplas interações e transformações características da existência, que provocam tanto consequências boas como más.

Apesar de nunca ter escrito uma carta, com base nas que leio e no que pesquiso, têm uma substância mais recompensadora que um e-mail. Já nem falo das mensagens dos chats, que são tão poucochinhas. Contraditoriamente são muito mais eficientes e, por essa razão, seria de esperar que as achasse melhores, mas também são tão insatisfatórias e aborrecidas. Sim, uma comunicação por cartas é lenta e não dá para usar gifs, áudios, memes,.etc, mas as conversas epistolares prenderam a vivacidade de outrora.

A rapidez e o automatismo retiraram uma essência que não consigo identificar com exatidão, o que porventura se deve a nunca ter feito parte da nossa bolha espaciotemporal. Por «nossa», entenda-se quem nasceu a partir dos meados dos anos noventa. O mais irónico é que não consigo viver sem o comodismo da tecnologia eletrónica tal como está. Se entrasse nesse universo paralelo, parecer-me-ia bastante estranho e desconcertante. Ou podia ser só o choque inicial. Enfim, a História alternativa é um entusiasmante exercício imaginativo, mas apenas isso, uma diversão.

O círculo social está mais amplo — centenas, milhares ou até milhões de conexões digitais — mas também mais raso. Temos redes-charco. Antes o número de pessoas que se conhecia restringia-se, por norma, à localidade, mas o convívio era mais completo. Havia redes-poço. Como é que na nossa linha temporal, podemos fazer com que os charcos se aproximem um pouco mais dos poços? Em média, não é possível conhecer intimamente mais que 150 indivíduos (Harari, Sapiens, 2020), por isso, ainda que tornássemos as relações digitais mais completas, não seríamos chegados à maior parte dos amigos das redes sociais.

A comunicação rápida foi fulcral na aproximação entre entes queridos na pandemia. Abençoadas videochamadas que permitiram ver o rosto e ouvir a voz de quem amávamos e que não vimos pessoalmente durante meses. Numa versão alternativa da História sem ecrãs domésticos, as quarentenas teriam sido ainda mais prejudiciais para a saúde mental e emocional. Além da ausência de contacto humano, a pobre variedade de entretenimento doméstico ter-nos-ia enlouquecido.

Dois mil e vinte foi um ano interessantíssimo para ler o diário de Anne Frank, tal como a sua biografia. Não só por todo o rebuliço político que temos testemunhado desde há algum tempo, mas também, porque os judeus que se esconderam no anexo estavam em quarentena como nós. Por motivos bem mais mórbidos e com uma qualidade de vida incomparavelmente pior, mas estavam, para todos os efeitos, isolados dentro de quatro paredes. No entanto, eles não podiam dar-se ao luxo de ver Netflix o dia todo ou de falar com os amigos e a família no WhatsApp. Mesmo que tivessem as ferramentas de comunicação da nossa época, estariam condenados se as utilizassem, pois os nazis encontrá-los-iam através dos telemóveis ou dos computadores.

Otto Frank, o pai de Anne, encorajou-os a seguirem uma rotina rigorosa que consistia numa sequência de tarefas domésticas e que começava bem cedo. Isto porque também não podiam fazer barulho durante o grosso do dia, não fosse alguém ouvi-los e desconfiar. O trabalho diário e organizado abrandava o atrofiamento do espírito, já que os mantinha ocupados e lhes fornecia um objetivo. Na ausência quase absoluta de conforto e de entretenimento, duas das poucas escapatórias eram a disciplina e a perseverança. As outras eram a leitura e, no caso de Anne e da sua irmã, Margot, também a escrita. Para saberem notícias, usufruíam de um período limitado para ouvir rádio.

A quarentena dos refugiados do anexo durou dois anos (1942-1944) e lamentavelmente foram descobertos. Anne Frank não seguiu a carreira de escritora ilustre com que tanto sonhava, mas deixou uma obra sublime que ensina, comove e inspira qualquer um que a leia até hoje.

O mundo como o conhecemos permitiu um combate mais rápido à pandemia. A partilha de informação entre especialistas teria sido muito mais vagarosa sem as vantagens modernas, assim como a recolha de dados e a aquisição de bens. Pudemos, apesar do esforço emocional, ver-nos livres de cada quarentena depois de alguns meses deitados no sofá e os ecrãs proporcionaram-nos um contacto sem precedentes históricos com o exterior. O antigamente é com frequência associado à proximidade social, mas num contexto de isolamento, foram os habituais agentes do afastamento que atenuaram a distância.

Questiono-me também acerca da eficiência do ativismo num mundo quase isento de ecrãs. Se a internet e os smartphones nunca tivessem sido inventados, quanto tempo demoraria alcançar e consciencializar um número gargantuesco de pessoas para a luta contra a discriminação?

Uma das causas que agora estão sempre na boca de toda a gente é a da comunidade LGBTQIA+. Que este ativismo esteja a produzir tantos resultados positivos como excessos, não me interessa explorar aqui. O que importa reter é que a criação de nichos na internet em prol das diferentes orientações sexuais e identidades de género, catapultou uma nova perceção de uma realidade que, durante milénios, viveu à sombra. Numa civilização de redes-poço, durante quantos mais anos, décadas ou séculos viveriam estas pessoas com medo de estarem sozinhas no mundo? Numa sociedade local, arriscavam-se a ser ostracizadas ou até mesmo violentadas.

Não sei se, de todas as direções pelas quais a História podia ter enveredado, esta é a melhor ou a pior, mas é a única a que temos acesso. Às vezes, sente-se um saudosismo, porque a evolução dos aspetos maus é proporcional à dos bons e fica difícil discernir se estamos a fazer as trocas certas. O mais provável é que nunca consigamos um equilíbrio perfeito, posto que todas as moedas vêm com dois lados. Se tentarmos consertar o afastamento que os ecrãs continuam a aumentar, surgirá uma solução, mas também outro problema.

A conjuntura social atual está a causar danos notórios, diminuindo a capacidade de foco, aumentando os níveis de ansiedade e prejudicando o sentido cognitivo, sobretudo o das crianças. A falta de contacto e afeto está ligada à depressão, ao aumento da tensão cardiovascular e a um sistema imunitário enfraquecido. Além disso, as novas gerações estão mais agitadas e menos empáticas, mostrando atitudes egoístas e arrogantes. Como é que resolvemos isto? Andar para trás não resolve nem é exequível. Educar melhor? Isso é o que se diz em qualquer momento histórico e, embora não deixe de ser verdade, não parece ser suficiente. Ou então, nunca educámos da melhor maneira, o que por sua vez, depende das circunstâncias.

O que acha o leitor?