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Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

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22/10/16

Fala Elaborada

por Olavo Rodrigues

Se há definição que me soa mal é esta, a da «fala elaborada». Deduz-se que alguém se enquadra na dita designação quando se nota que existem no seu discurso vocábulos invulgares, as chamadas «palavras caras» ou «cultas», bem como construções frásicas que provocam a mesma estranheza. 

O registo do quotidiano é mais informal, pelo que há espaço aberto para gírias, calão e palavrões. Da mesma maneira que não se espera que se fale numa sala de reuniões como se fala num café, também não é suposto a expressão verbal das salas de reuniões sentar-se a beber um bica com um/a amigo/a. No entanto, acontece e eu declaro-me culpado. 

Entendam-me, não é algo constante, não tenho pedalada para isso e para ser sincero, também quase nunca o planeio. Normalmente, quando tem de sair assim, sai. Confesso que sempre tive alguma tendência natural, mas só começou a revelar-se com grande nitidez na altura em que me interessei verdadeiramente pela escrita e pela leitura. A acrescentar a isto, havia as tertúlias da minha escola secundária que eu gostava de frequentar.

Todas estas condicionantes formataram de certo modo o meu raciocínio linguístico e às vezes dava por mim a dizer «ingeri uma sandes» em vez de usar o verbo «comer» para o mesmo fim. Como se não bastasse, eu era bastante tímido naquela altura (e ainda preservo uma porção dessa natureza) e assim sendo, nunca tive uma vida social tão activa como os adolescentes da minha idade, o que não ajudava a diluição do vocabulário «elaborado». 

Preciso também de adicionar que devido a adorar a arte da palavra, me entusiasmo quer a falar, quer a escrever e por este motivo, nos poucos segundos de espontaneidade que disponho para formular uma frase, escolho inconscientemente uma combinação atípica, pois é sem dúvida um tipo de construção linguística que me agrada consumir. Nos poucos momentos em que é consciente, esforço-me sempre para não seleccionar uma palavra muito esquisita, pode calhar ser literária e não formal. 

Porém, eu não ignoro o vocabulário coloquial, é a parte criativa e engraçada de qualquer idioma. Adoro de paixão expressões como «não contes com o ovo no cu da galinha» ou o famoso e frequentemente usado «desenmerda-te!». No fundo, chego à conclusão de que não me consigo decidir e quase tudo o que eu produzo, seja oral ou escrito, é uma autêntica caldeirada.

Os moldes formal e literário podem dar-me claramente uma imagem pretensiosa, mas não verdadeira. Aliás, ter riqueza de vocabulário a meu ver, é saber trabalhar a língua em diversos registos e isso nem sempre é o meu caso, o registo coloquial costuma surgir em força quando estou a escrever um texto literário e encarno uma personagem. 

A Constança, uma das protagonistas de Banho de Maionese, contrasta com o Samuel a nível do sentido de humor e forma de se expressar lexicalmente, por isso, quando ela narra a história é como se fosse a própria personagem a estar à frente do computador e a fluir em cada palavra (creio que isto é generalizável a todos os escritores), mas enfim: torna-se mais complicado na minha vez, eu, o Olavo Rodrigues. 

Ao contrário do que alguma vezes dou a parecer, não domino o idioma português tão bem quanto gostaria. Por incrível que seja, aos 16 ou 17 anos sabia na ponta da língua o que era «axiomático», mas nunca na minha vida tinha ouvido a palavra «falcatrua». 

Como é que se explica isto? Nos telejornais o que não faltam são notícias de intrigas políticas e corrupção, mas bastou o Sheldon Cooper da Teoria do Big Bang dizer axiomático uma vez para que me ficasse na cabeça. 

Na minha opinião, definir o discurso caro como um instrumento de alta qualidade é elitista. Não é melhor nem pior, é um tipo de registo que à semelhança dos demais é utilizado em função de um determinado propósito. 

A qualidade da elaboração de um texto, por exemplo, depende do que é que o/a seu/ua autor/a quer alcançar. Se o seu objectivo for participar ao/à patrão/oa que os relatórios estão à espera de ser lidos, então deve redigir uma mensagem com toda a concepção barroca e formal necessária: caro/a Senhor/a Doutor/a, venho por este meio informá-lo/a...

Porém, se pretender escrever algo humorístico, então o que procura é mais ou menos linhas deste estilo: o gajo tropeçou e afundou mesmo a tromba na lama. Ou ainda um naco de poesia: apaguei as estrelas do céu para lá pôr um poema dedicado a ti. Agora há mais brilho do que nunca. 

Todos estes géneros cumprem o efeito desejado, portanto, estão bem elaborados. Segundo a minha teoria, a definição «palavras caras» relaciona-se com os tempos antigos nos quais somente a classe rica tinha acesso à educação e aprendia o léxico formal. A referida maneira de falar começou por isso a ser associada à população do alto estrato, porque de facto pagavam caro para estudar.

Contudo, felizmente as oportunidades estão a florescer para um número cada vez maior de pessoas e as mentalidades também se encontram em mutação. Porquê continuar com rótulos de superioridade e inferioridade?

 

 

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