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Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

Toca do Coelho

A mascar o pensamento à sombra calma da luz irrequieta.

25/04/16

Póquer Aldrabado

por Olavo Rodrigues

Jogo sujo da corrupção,
Jogo de póquer desenvergonhado,
O único que não vê por detrás das cartas,
É o Zé Povinho malfadado.

 

Quanto mais fichas eles obtiverem,
Mais se ajudam, mas cuidado!
Não te metas no seu caminho,
Olha que te lixas!
Basta um estalido de dedos se eles quiserem
E és comido/a pelas víboras daquele ninho.

 

Andam os escravos a equilibrar-se num chão cada vez mais torto,
Já há quem não tenha onde cair morto,
É um mundo em que até os cães se tratam melhor entre si,
Agarro-me à caneta de olhos fechados
E observo o pôr-do-sol,
Num canto que é só para mim.

25/04/16

O Abraço

por Olavo Rodrigues

O abraço pode ser a ligação de dois mundos,
Que num momento rasgam qualquer tipo de laço,
E que no outro, precisam de calor, de estarem juntos.

 

Desde a linguagem geral dos tempos ancestrais,
Sempre significou a junção de dois corações,
E também toca muitas outras dimensões
Da alma, que pede mais e mais.

 

Num local marcado por uma grande mossa,
Deixa chegar-lhe os braços de um/a amigo/a,
Que ele nela porá, a boa humanidade nossa.

23/04/16

Parque da Liberdade

por Olavo Rodrigues

Ó, adorado parque que por ti passo todos os dias:

És o meu conforto de Verão e de Inverno,

Um paraíso eterno,

O Céu que se sobrepõe ao Inferno.

 

Quando te vejo, sinto uma força que me estiola,

Porque em vez de ir ao teu encontro,

Vou ao da escola.

 

Ó, grande parque!

És a casa da liberdade,

Um oásis no deserto,

Uma dádiva dos deuses para a cidade.

 

Quando estou em ti, não estou mais acorrentado,

Sinto-me como o grande cavalo selvagem

Que não se deixa ser domado.

 

Quanto mais corro, mais feliz sou

E para mim o tormento acabou.

Quando estou em ti, Parque da Liberdade,

Eu, eu e eu interagimos como uma irmandade.

 

21/04/16

Ao Meu Querido Alentejo

por Olavo Rodrigues

Numa grande terra além do Tejo, 

Há uma beleza única para aproveitar,

Há tanta maravilha de sobejo,

Mas a Terra Prometida está-se a degradar.

 

O ar fresco é mensageiro da Natureza,

Traz os aromas que nos seduzem sem defesa,

Assim também eu quero viver como Alberto Caeiro, 

Numa nuvem de verde, a apreciar este pedaço de Céu na Terra.

 

Alcançar a primeira categoria sai do pêlo àquela boa gente,

Que trabalha nas sete quintas,

Para dar uso ao dente.

 

Venha o alho criado nos braços da falsa moleza,

Venham o pão e as recheadas cantigas,

Do fundo do coração entrelaçam-se relações amigas.

À mesa celebra-se o triunfo da felicidade gorda,

Que se faça então, brinde a isso,

Na companhia da bendita açorda.

 

Ouvem-se os grilos a tagarelar,

É de noite e os mosquitos começam a chatear.

Mais um dia que com a minha intensa alma vejo,

No inigualável Alentejo. 

 

PS: eu sei que me distanciei um pouco da realidade, mas eu adoro sonhar com a Natureza e se puder juntar portugalidade a isso, melhor ainda. 

18/04/16

O Acordo Ortográfico de 1990 (2)

por Olavo Rodrigues

Nos primórdios deste blogue, comentei este assunto que tanta polémica tem gerado. (http://escritormascaradotocadocoelho.blogs.sapo.pt/o-acordo-ortografico-de-1990-1290)

Confesso com a maior franqueza que sou um grande troca-tintas no que diz respeito ao mesmo. 

Já discordei, concordei, voltei a discordar, a concordância levou a sua avante novamente e agora existe um impasse. A verdade é que ambos os sistemas ortográficos possuem virtudes e incoerências.

No caso do mais recente, uma das maiores é o facto de haver cortes desnecessários na acentuação de palavras como «pára/para». (Peço desculpa pelo erro que anteriormente aqui comparecia. Ao contrário do que eu afirmava, «cágado» não perdeu o seu acento).

Enfim, em relação ao de 1945, também temos este problema, embora não torne as palavras confusas. Vejamos o exemplo de «pêra/pera» - por que era este vocábulo acentuado e outros como «pena» e «cera», não? O «e» também se encontra fechado. 

A principal razão que me leva a abordar o presente tema pela segunda vez não é participar a minha posição face à reforma ortográfica, pois como já se verificou, não é nenhuma. Aquilo a que eu realmente dou valor é poder expressar-me em português. E é precisamente este aspecto que me preocupa. 

Reparem os prezados leitores que uma mudança desta dimensão altera a conjuntura do nosso idioma, mas a absorção exacerbada de estrangeirismos (abordada aqui), modifica a estrutura, o que é muitíssimo mais relevante. Sinceramente, não me importaria de voltar ao sistema profundamente etimológico anterior a 1911, desde que a essência da língua portuguesa permanecesse o mais pura possível. 

Os protestos contra a Reforma Ortográfica de 1990 são tantos, que a sua oficialização foi adiada para 2016, todavia, por que não há tantos acerca do atentado ao nosso vocabulário que perdura há séculos? 

A nova grafia mostra-se bizarra aos olhos de quem não a aprendeu de raiz, mas ao menos convive com a língua portuguesa. 

 

 

15/04/16

Nostalgia de Infância e Capacidade de Pensar como Outrora

por Olavo Rodrigues

Eu ainda sou bastante novo, no entanto, já possuo maturidade suficiente para sentir a nostalgia das memórias de infância. Não gostaria de voltar atrás, visto que isso significaria regredir e é a caminhar para a frente que se evolui. Contudo, a magia dos sonhos e momentos de criança permanece-nos no coração para o resto da vida. 

Recentemente, tentei escrever uma história infantil para um concurso organizado pelo Pingo Doce, cujo prazo para a categoria de texto terminará no dia 22 deste mês. Não singrei concretizá-lo.

Eu sempre julguei nunca ter perdido a minha criança interior, pelo menos a maior parte dela, não obstante, quando tentei pôr o meu imaginário em prática para aquela história, o caso mudou de figura. Não é que de momento pense como um adulto, pois ainda não atingi a profundidade de tal faixa etária, contudo, diria que a minha criança interior se converteu num pré-adolescente. E é incrível a subtileza com que isto ocorreu. 

Sempre que vasculhava ideias na minha cabeça, só encontrava material para o ramo infanto-juvenil, mas o infantil evaporou. 

É fascinante observar que à medida que absorvemos a beleza da complexidade, perdemos a da simplicidade, passamos só a saber complicar. No meu caso, a prova disso foi a adaptação da linguagem, foi o maior desafio para mim (não desisti do projecto, apenas quero dedicar-lhe tempo sem pressão. O meu lado perfeccionista gosta de falar alto). 

Vou dar-vos como exemplo um episódio que tive a sorte de contemplar:

A rondar os meus doze anos, fui convidado para participar numa oficina de ciência numa biblioteca próxima da minha residência. Um dia, as professoras deram-nos um exercício que avaliava uma falha do cérebro, o qual consistia em olhar o nome de uma cor tingido de outra. Isto é: «vermelho» estava a amarelo, «preto» a verde, «azul» a cor-de-rosa e por aí fora. 

Eu, que tão ligado me encontro à expressão verbal, espalhei-me ao comprido, apenas conseguia mencionar as palavras, não as cores que me eram mostradas, era muito confuso. Todavia, era também intrigante constatar que os miúdos que não sabiam ler, acertavam em tudo. Possuir conhecimento naquela situação revelava-se uma desvantagem notória. 

Quero com isto ilustar que enquanto crescemos, ganhamos umas qualidades e perdemos outras e que o grande desafio da evolução etária é manter uma ponte firme entre as duas realidades.  Acho que não me tenho safado mal, mas como já relatei, também já apresento alguns lapsos. 

A meu ver, a solução não é continuar a gostar de brinquedos ou de certos desenhos animados, os gostos mudam e não devemos contrariá-lo. Passa muito pela interacção com crianças, sempre que posso, faço-o, é simplesmente delicioso. 

Consiste em tentar preservar as características natas como a honestidade, a criatividade e a genuinidade ao mesmo tempo que se criam novas virtudes, tais como o discernimento do bem e do mal, o sentido de responsabilidade e a força de vontade para a realização pessoal. 

Uma outra boa maneira de melhorar este aspecto é a observação. As crianças observam os adultos para aprenderem o que eles sabem, estou em crer que nós devíamos observá-las também para reaprendermos umas coisas. 

Complicar será sempre inevitável, ainda para mais que na actualidade a informação vem às avalanches e talvez seja por isso que as novas gerações são precoces. Contudo, se por vezes queremos alguma simplicidade, podemos começar pela nossa mente. 

 

15/04/16

Publicidade, por Favor, Abranda para a Primeira

por Olavo Rodrigues

É um mal necessário por muito incómoda que seja. Toda a gente a despreza, mas as sociedades capitalistas colapsariam sem a sua existência, pois move quantidades inimagináveis de dinheiro. Mas será que precisamos de tanta?

São poucos ou nenhuns os momentos em que não estabelecemos contacto com a publicidade, há-a em todo lado. Desde a televisão à rádio, dos cartazes gigantescos ao pé das estradas à internet... Céus! Que massacre! 

Quando alguém entra na sua zona de conforto, pretende esquecer o melhor que conseguir que habita uma sociedade excessivamente padronizada, vampírica e que muito provavelmente, o explorará. Assim é difícil! 

Para mim, não há coisa pior que estar entusiasmado a assistir a um filme ou a um vídeo e interromperem-no para publicidade. Agora até o YouTube o faz, não sei se é impressão minha, mas creio que há cada vez menos vídeos com a opção «pular anúncio». Só não fazem o mesmo aos livros porque as pessoas conseguiriam ignorar a estratégia comercial.

Pronto, convenhamos, eu não vou ser hipócrita e dizer que não aceitaria que uma marca ou duas se expusesse no meu blogue, escrever é a minha paixão e seria esplêndido se o tivesse como forma de subsistir.

Porém, pergunto se uma vez mais não é a ganância humana que está a intervir. Será que os grandes empresários que gerem os meios de comunicação, não estão a deixar-se levar pelo egoísmo?

Eu interrogo ao invés de afirmar por ser um leigo quanto ao empreendedorismo, mas é sem dúvida uma suspeita minha. 

 

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