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Toca do Coelho

Uma espécie de blogue/livro/coiso com espécies de texto.

Toca do Coelho

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06
Out19

Memória Eidética

Olavo Rodrigues

Se há coisa em que sou óptimo é esquecer. Não há dia em que não fique preocupado com a possibilidade de ter perdido alguma coisa. De vez em quando, chego a ter um mini ataque cardíaco, especialmente quando não sei da carteira – que já perdi duas ou três vezes – e acabo por constatar que estava apenas um pouco mais bem escondida no bolso ou guardada na mochila.

No entanto, umas vezes para bem e outras para mal, o meu cérebro tem uma capacidade de preservar memórias inúteis para o “aqui e agora”, que excede em muito conseguir lembrar-me de que não preciso de procurar os óculos, porque já estão na cara. De facto, o cérebro funciona como um computador e, se abríssemos o meu, veríamos três pastas principais na zona das memórias: “pessoas”, “lugares” e “experiências”.

Em jeito de exemplo, na primeira encontra-se o meu professor de Prática de Tradução de Inglês-Português, o qual infelizmente já faleceu. Era a personificação do “estou-me a marimbar!”, o que dava para perceber pelas suas antologias de capa mole com somente um agrafo a unir tudo. Ou então: "gosto de passar o Natal a beber cerveja. Agora por vossa causa, vou de ter de o passar a corrigir testes, por isso, se as notas e os comentários saírem um bocado esquisitos, já sabem porquê." Ou melhor ainda por esta inesquecível confissão: “se acham que perco tempo a preparar as vossas aulas, são mesmo tolos. Tenho mais que fazer!”. É claro que isto não passava de gozo, pois o semestre inteiro estava planeado e registado na antologia.

O meu professor deixou estas e muitas outras pérolas hilariantes e ou era adorado ou detestado. Falando do meu caso, creio que não há ninguém melhor para ensinar do que um excelente contador de histórias. Sentido de humor não lhe faltava, pelo que não havia uma única aula sua da qual eu não saísse bem-disposto. “Ele só sabe falar da vida dele!”, argumentavam alguns. Porém, eram precisamente as vivências do mestre que nos forneciam conhecimento sobre tradução e cultura. Oxalá pudesse ser sempre ensinado e entretido ao mesmo tempo.

Não abandonando o Ensino Superior, um lugar a destacar é, sem dúvida, a minha primeira faculdade. Um sítio maravilhosamente invulgar onde se encontra todo o tipo de pessoas: desde a rapariga aleatória que passou disfarçada de vaca ao amigo sempre descalço e ao autor com bichos carpinteiros, que nunca pára de andar de um lado para o outro, perdido num local alheio ao espaço-tempo. E está tudo bem. Sem stresse e sem limites desde que não se provoque stresse. A paz, a empatia e a curiosidade são indispensáveis e existem naquele espaço de forma tão consistente como as próprias aulas.

Hoje em dia, estou num sítio diferente no qual ainda não encontrei um encaixe, mas não faz mal. Pressa para quê se a semelhança com a primeira faculdade já é meio caminho andado para me sentir integrado? É verdade que é estranha esta familiaridade por não conhecer quase ninguém. Contudo, como sou exímio em esquecer, não me recordo de que começar e acabar é o resumo da vida.

Bem, o que dizer da pasta das experiências? As experiências são compostas por pessoas e lugares, os quais, por sua vez, dão à luz um momento nem que seja fictício. Eu devoro tudo o que me alimente a imaginação, seja novo ou velho, seja para miúdos ou graúdos. O principal motivo pelo qual escrevo ficção é poder, como as crianças, brincar ao faz-de-conta independentemente da minha idade. Escrever, na verdade, parece-se muito com montar legos: ao juntar pecinhas ou palavras, criamos qualquer coisa. Qual é a piada de ser adulto se não for também criança? Qual é a piada da vida sem imaginação?

Assim sendo, é frequente eu voltar a programas da minha infância ou adolescência como Phineas e Ferb, a músicas de High School Musical e a jogos como o Club Penguin. Não costumo procurar material de escrita, posto que isso surge de maneira espontânea. A questão é que sou um nostálgico incansável, portanto, é fundamental conservar a memória eidética. Entusiasma-me imenso imortalizar onde estive, com quem estive, o que vivi e o que não vivi.

Talvez nunca atine com o paradeiro da carteira, mas de certeza que nenhum lugar, pessoa ou experiência há-de cair na reciclagem.

23
Ago19

Bem Sentado

Olavo Rodrigues

Estou sentado à janela no preciso momento

Em que monto estes versos,

Mimado pelo sol,

Que, embrulhada na luz,

Me oferece alegria de viver ao corpo.

 

É no Vale dos Sonhos que vivo as maiores aventuras

De tipos tão variados e numerosos quanto as partículas de luz

Que relevam a genuinidade destas palavras.

 

Eu gosto daquele lugar

Estou seguro mesmo quando estou em perigo

E é tão bom saber que, 

Afinal, 

Não preciso de pagar pelas melhores viagens.

 

Mas hoje é diferente

O Verão também está de férias

E não sufoca ninguém,

Permitindo-me não ter de escolher

Entre respirar e escrever 

Hoje é dia de descanso

Para a Natureza, para os que me rodeiam e para mim.

 

Tenho de aproveitar:

Estou sentado. 

Estou sentado no descanso

Não há,

Aliás,

Outra forma de estar sentado.

 

Ou se senta ou se está no assento com bichos carpinteiros

Seja no rabo, na cabeça ou nas mãos,

As quais laboram em conjunto.

 

Hoje não trabalho: escrevo

Não é a mesma coisa

Escrever é para quando estou sentado

Trabalhar é para quando escrevo com bichos carpinteiros.

 

Em que hei-de pensar?

Não: como hei-de fluir?

Não há nada para fazer

A não ser mover a caneta

E contemplar o encanto da simplicidade do Agora.

 

Por uma vez, o mundo prende-me como é

Por uma vez,

Como um grão diferente em toda a praia,

O mundo é belo como é

E não apenas quando eu não sou como sou 

Fora dele.

 

A presença constante da vida:

Pessoas que passam a falar,

A criança que sempre chora e ri

A gaivota que anuncia a sua existência

Ao contrário de mim.

As pessoas que convivem fora deste isolamento à janela,

Deste presente que traduzo para aqui.

 

Por uma vez, o mundo apraz-me no presente

Mas, a bem da verdade,

Eu continuo a não ser uma peça desta maquinaria incansável.

Posso estar aqui, na fisicalidade, a assimilar as ocorrências

Mas não deixo de estar num casulo só meu

Enquanto o mundo passa por mim ao seu próprio ritmo

E eu me demoro aqui ao meu

Partilhamos o mesmo espaço-tempo,

Mas não a mesma vivência

Talvez nem sequer a mesma realidade.

 

Eu não sou parte da maquinaria 

Pertenço à Natureza,

Pois quis o Universo que fosse a minha natureza estar

No outro lado do equilíbrio:

No dos mais alheios. 

 

E não podia sentir-me mais grato

Por me conceder a oportunidade de parar

E de consertar o meu equilíbrio

Focado no ambiente certo,

Ao ritmo certo

E com o propósito da caneta certo.

 

Obrigado, Universo,

Por esta folga fora de mim

Por me deixares molhar só os dedos dos pés

E ter o melhor dos dois mundos. 

 

 

 

 

 

 

 

06
Jun19

É Verão!

Olavo Rodrigues

Eu cá, quando for grande

Quero continuar a ter férias grandes. 

Acabam depressa e são de aproveitar. 

 

É Verão. Por onde começar?

Passas o dia na praia

Com as gaivotas a cantar

Enquanto se reza para que o castelo de areia não caia. 

Sentes o beijo das ondas a tocar-te nos pés

Que te chama para brincar na liberdade do reino de Neptuno. 

Lavas-te entre risos e molhadelas geladas de lés a lés

Até contemplares o sorriso do céu nocturno. 

 

Há tanto tempo que não tinhas tempo

E agoram vieram as férias grandes 

Fora  da escola, espera-te o desejado momento

Cheio de gelados, refrescos e sestas incessantes.

 

Os mimos na casa da avó, sempre cheia de chocolate 

E sumo de fruta natural.

Tudo isto faz parte

Do prazer de não cumprir deveres

À chegada do Verão doce, como a sua calma matinal.

 

A criatividade floresce 

E a criança cresce

Imersa no direito que não pode ter

É simplesmente lindo observar

O desdobramento genuíno do Ser. 

 

Podes ser um super-herói

Ou um supervilão.

Sê quem sói

Passar à acção. 

Que tal viajar pelas estrelas?

Ou correr o mundo como agente secreto?

As infinitas criações, toda a criança sonha tê-las

E graças às crianças, nunca o divertimento foi tão completo. 

 

Um revigorante e simples passeio de bicicleta

Também vem mesmo a calhar. 

Não temas a seca aberta, porque...

É VERÃO!

Com o que vais sonhar?

 

 

04
Jun19

Eh, Pá, Não Me Apetece!

Olavo Rodrigues

Para mim, um dos melhores conselhos para vencer a página em branco é escrever qualquer coisa. Qualquer coisa serve. Algo simples, espontâneo ou até mesmo aleatório como: "o porco escocês azul comeu o armário de morangos". O importante é desbloquear a fluidez, pondo o cérebro a carburar. Eu não publico regularmente há meses e, como tenho preguiça de ir buscar a minha lista de ideias, assim segue este texto ao sabor do vento: sem planeamento, sem um objectivo específico... talvez se transforme apenas no depósito de pensamentos que a vida não me permite descarregar tão amiúde como gostaria. 

O que contam vocês? Bem, só com um a falar é difícil ter uma conversa. Não estou com disposição para uma introspecção e também não quero falar da actualidade. Já há tanta gente a fazê-lo. Para quê mais um? Para quê nesta altura em que estou numa de dolce far niente?  Estou de férias e já me fartei de pesquisar para os meus trabalhos, por isso, vou cortar este impedimento à espontaneidade e deixar as grandes questões do nosso tempo a quem se interessa por elas agora. "Mas, Olavo, a actualidade é importante para sabermos com que linhas nos cosemos." Sem dúvida e não há nada a argumentar contra esse facto, mas se virmos bem, o mundo já sobreviveu a duas guerras mundiais - fora outras catástrofes de destruição massiva - portanto, só uns dias de folga da humanidade não devem fazer muita diferença. Além disso, se rebentar a Terceira Guerra Mundial ou outra desgraça com uma magnitude parecida, será impossível não saber dela. Ninguém cai numa cratera por não a ver. 

Assim sendo, que se dane a actualidade: a política, o futebol, os crimes (onde a política também se inclui), os parentes de 2019 da "Casa dos Segredos", entre tantos outros assuntos que geram incontáveis chatices. Acrescento que descansar não é só tirar férias da faculdade e do mundo, mas também de mim próprio. Eu que me dane! Ou melhor: parte de mim. Preciso da metade positiva e funcional, caso contrário, não usufruo do descanso nem deste texto. Dipenso, então, as instrospecções detalhadas e sem saída. Se estou a escrever algo sem rumo, que seja leve. Não seria justo da minha parte desejar descansar e depois bombardear-vos com tagarelice chata da mente. É possível que isto não seja muito mais interessante, mas ao menos não é nada de jeito, que é o que vem mesmo a calhar nas alturas em que abunda o tempo livre: cenas sem jeito nem maneira que não servem para rigoramente nada. Não são úteis nem educativas de forma alguma, porque se eu quisesse ser produtivo agora, não estava de férias. 

Só com palha já enchi quase uma página e vocês continuam a ler isto. Das duas, uma: ou estão muitíssimo entediados ou gostam mesmo de tagarelice sem pés nem cabeça. De qualquer maneira, sinto-me lisonjeado por preferirem esta divagação à omnipresente actualidade. Também estão de férias e adoptaram a minha filosofia, ou vieram à procura de entretém enquanto o marido se arranja, ou a esposa acaba de contemplar cada centímetro do maquinão novo? Eles podem demorar um bocado e eu não sei se consigo encher chouriços durante muito mais tempo. Desenrasco-me a inventar, mas calma lá.

Já experimentaram gritar: "a comida está pronta!"? Dão-lhes uma barra ou um jajão, como se diz hoje em dia. Talvez o seu apetite fale mais alto e ele largue o raio da maquilhagem e ela o maldito carro. Assim já podem parar de me aturar. Não, esqueçam. Não se dêem ao trabalho, não vale a pena. Dá tanta preguiça levantar o rabo da cadeira e de certeza que continuar à procura de parvoíces engraçadas na internet sabe muito melhor.

Enfim, já me cansei. Podia esforçar-me para arranjar uma conclusão decente e bem pensada, mas... eh, pá, não me apetece! 

18
Jan19

Clichês

Olavo Rodrigues

Ah, os clichês! A típica história de amor entre duas alma-gémeas inseparáveis ou a amizade de aço de dois grandes amigos. O triunfo do bem sobre o mal, a atracção dos opostos, entre outros. Mesmo que estes modelos se repitam bastante na arte de tecer histórias, nunca são dispensáveis. A histórias não são o mesmo sem, pelo menos, um deles. Clichês em demasia são enfadonhos e tornam o enredo previsível; contudo, a ausência destes retira às histórias a razão pela qual o público as consome: a identificação com elas. 

Os clichês têm a capacidade de dotar as personagens de características tão humanas como as nossas, portanto, queremos estar com elas para o bem e para o mal, quase como se o filme ou o livro fosse um sonho que nós também gostávamos de viver. E, no fundo, vivemo-lo, daí não largarmos o ecrã ou não conseguirmos parar de virar as páginas. 

Às vezes dou por mim tão entranhado na história, que me esqueço do mundo que me rodeia, pelo que, quando acordo, nasce em mim uma sensação mista de estranheza e de familiaridade, como algo do estilo: «eu conheço isto, mas como é que vim aqui parar novamente?». 

Há imensos clichês, tão variados e com tantas funções como há géneros de histórias. Existem os amores e as amizades profundos referidos acima, os quais se relacionam com o facto de o próprio espectador ou leitor amar de paixão os que lhe são queridos, portanto, o resultado feliz de uma discussão bem feia ou, a superação de um grande obstáculo em conjunto, não revelam mais do que o reflexo das emoções e dos desejos do público. 

Atrevo-me inclusive a dizer que este é o clichê mais popular, pois transcende o mundo das histórias. Vemo-lo na música, na poesia, em desenhos, etc. Para além disto, existem também várias ramificações associadas a esta bomba de comércio, como o homem que corre atrás da sua amada até ao areoporto para a convencer a desistir da viagem ou para ir com ela, pois não suporta viver sem a mulher dos seus sonhos; ou então, o encontrão que faz com que dois desconhecidos deixem cair os seus pertences e criem uma química mal troquem o primeiro olhar. 

Acrescentemos também a escolha errada de um parceiro egoísta e abusivo que, no início, é um anjo, mas que depois acaba por se revelar um monstro enquanto o amor verdadeiro esteve sempre lá para o protagonista cego e equivocado... enfim, a lista nunca mais termina!

Nos enredos em que há porrada de criar bicho, há sempre o durão que dá uma valente trepa a mais de dez adversários, pondo o público ao rubro e cheio de adrenalina. Aqui nota-se o gosto talvez algo primitivo pela superioridade física e pela pancadaria. Atenção, eu não sou diferente. Desde que não seja muito explícito, gosto de assistir a um bom combate bem coreografado. Se envolver superpoderes, então, ainda melhor. 

Também considero justo confessar que o estilo fanfarrão do durão, que é complementado por uma piadola ou outra em relação ao adversário, dá prazer. É engraçado percepcionar como a ficção pode alterar, diametralmente, um ponto de vista. Se fosse real, as pessoas com certeza não lhe achariam tanta piada. 

O clichê cómico do: «o que pode correr mal?». Quem é que não gosta deste? O ser humano é, de facto, um bicho  ruim. Quando se ouve uma personagem atirar isto, já se sabe que surpresas agradáveis não há-de ter, o que se traduz no riso que a desgraça alheia provoca. Só tem graça quando acontece aos outros, mas não acontece só aos outros, essa é que essa! Na vida real também se acha piada a isto desde que a pessoa a quem ocorre o azar não fique muito magoada, dado que, nesse caso a reacção imediata é: «uuuh! Até me doeu a mim!».

Ainda no reportório do riso, não podemos ignorar os protagonistas do humor: os palavrões e o sexo. Não compreendo, juro que não compreendo, o porquê de nós acharmos tanta piada à especialidade de Vénus. É uma coisa perfeitamente natural desde que existem seres sexuados na Terra. Rirmo-nos do sexo devia fazer tanto sentido como rirmo-nos de alguém a comer ou a respirar.

Quero dizer, até faço uma pequena ideia. A humanidade adora divertir-se com o que é proibido e, por esta razão, inclui, numa actividade cujo único propósito é entreter, elementos que «não devia» praticar nem dos quais devia retirar prazer. É tal e qual como o bicho da gula melgar uma criança para esta comer um pedacito de chocolate antes da refeição e a mesma obedecer sem hesitar. Sabe que não deve fazê-lo e, que se for apanhada, vai levar um ralhete dos pais, mas parece que o prazer do chocolate é intensificado pela noção do perigo.

Quanto ao sexo e aos palavrões é a mesma coisa com a pequena diferença de que, em relação ao primeiro, já não se leva ralhetes independentemente do que se decida experimentar. Quero dizer, ao menos em pleno século XXI já não devia ser assim, mas como o rótulo de tabu que se atribui ao sexo ainda está muito enraizado na nossa sociedade, o prazer continua a ser intensificado quando se faz humor sobre ele. 

Relativamente ao segundo, não passa tudo de uma grande hipocrisia, visto que toda a gente pragueja e todos criticam quem o faz... depende do contexto, vá...

Eu adoro (mais ou menos) que nos momentos de tensão em que, por exemplo, uma bomba está prestes a explodir, o herói consiga cortar o fio certo no último segundo em quase todas as histórias. Se não me engano, creio que só vi um filme no qual o relógio parou no dois. Lamento; porém, não me lembro de qual é. 

Este clichê já não me entusiasma muito, pois como é muito repetitivo já não tem o efeito desejado. O consumidor já sabe que a probabilidade de aquela personagem resolver o problema é quase certa. A sensação de alívio que o ser humano tanto preza não brota, dado que nem sequer chega a haver tensão. É bom tentar criar suspense, mas não creio que os clichês sejam as ferramentas mais adequadas.

Talvez uma boa solução fosse deixar a bomba rebentar mesmo e dar a entender a morte do herói quando, na verdade, seria um falecimento falso e o bem-feitor apareceria inesperadamente vivo. Esta ideia também não é inédita, mas ao menos não é tão comum. 

As típicas histórias de superação também são, a meu ver, óptimas para viver com intensidade. O homem ou a mulher (normalmente é o homem) que quase arruína ou chega mesmo a destruir uma relação de longa data devido à sua estupidez e que, no fim, se torna num ser humano melhor. 

Ou, então, o marrão que sofre abusos dos outros na escola, os quais são, regra geral, os mais populares. Na minha opinião, apesar de este último ser giro, creio que é um dos clichês mais gastos do entretenimento, sendo, por isso, um pouco cansativo de consumir quando se vê muitos filmes para adolescentes. Agarrado a este traço característico das películas juvenis, vem também o contraste entre a miúda gira popular e, o rapaz que vai à baliza a torto e a direito, por quem ela acaba por se apaixonar, porque percebe que o ex-namorado popular sempre havia sido uma besta e que tinha muito mais músculos que cérebro. Contudo, estas são as tais ramificações do clichê do romance. 

Uma observação: já repararam que os populares normalmente só se encaixam em duas categorias? Os rapazes costumam ser jogadores de futebol americano e as raparigas são as clássicas líderes de claque. Por alguma razão, Hollywood mostra uma aversão a actividades fora do âmbito desportivo, visto que, quando os moços não jogam futebol americano, dedicam-se ao básquete. Não há outro tipo de populares (de ambos os sexos) também apelativos, como modelos ou músicos. É a mesma coisa que nas telenovelas portuguesas os miúdos só irem ao colégio, não há cá escolas públicas. 

Aliás, quando se fala de histórias de amor, juvenis ou não, ou de telenovelas, podemos lembrar-nos de clichês como os mágicos tiram aquelas fitas enormes da camisola ou do bolso, não é? Isto deve-se ao facto de este estilo de entretenimento se basear principalmente nos tais sentimentos humanos com que todos nos identificamos, o que acaba por, na minha opinião, ser enjoativo, pois existe uma produção massiva do mesmo modelo, como se fossem produtos de fábrica.  

O único clichê que quiçá não seja bem aceite por uma parte significativa das pessoas é o facto de, por norma, só se fornecer o privilégio do holofote às carinhas larocas. É sabido que a esmagadora maioria dos actores que logram aparecer na ribalta são bem-parecidos ou, se não o forem, têm algum tipo de charme inerente. 

É raro encontrar actores de cinema ou de televisão que não sejam fisicamente «chamativos», digamos assim. Caso não o sejam de facto, muito provavelmente, isso deve-se aos requisitos da personagem e não à suposta escolha completamente imparcial e direccionada para o talento. 

Isto funciona, claro, porque o público gosta de ver caras bonitas e está muito bem, pois é uma característica humana, mas quando se trata do ganha-pão de alguém, que, apesar da aparência, até pode encarnar a personagem de uma maneira estupenda, esta selecção parcial prejudica certamente esse alguém que também adora ser actor e que gostava de viver da representação. Apelo à consideração pelas pessoas que não nasceram com a vantagem da beleza física. 

Já agora, a defesa da beleza interior em detrimento da exterior é também ela um clichê. 

Em suma, eu percebo que, nalguns géneros em particular, seja difícil ser original, porque os de ficção realista, por exemplo, tal como o próprio nome indica, baseiam-se na realidade, portanto, não há muita coisa para alterar ou, pelo menos, no que diz respeito à dimensão física da história. A psicológica e a social podem ser mais bem trabalhadas com um pouco de imaginação, dado que a mesma coisa contada de uma maneira diferente, bem como criativa, tem imediatamente outro encanto e outra beleza. 

Por outro lado, volto a bater na tecla da dificuldade quando se torna claro que a qualidade de uma obra é passível de ser distorcida pela quantidade das suas semelhantes. Uma telenovela, por exemplo, talvez até tenha potencial; no entanto, como já é a milionésima consecutiva, uma boa parte do público já não consegue destrinçar o que a torna um pouco diferente das outras e boa para dispensar algum tempo a vê-la. O problema não é o formato, mas sim o excesso. Seria como um amante de pudim só comer esse doce para o resto da vida. Para além de, certamente, não durar muito tempo, também iria fartar-se. 

Quando era mais novo, cheguei a pensar o mesmo das séries cómicas da Disney e do Nickelodeon. Há que existir o equilíbrio entre os clichês e a originalidade, sendo também complementado com variedade. É isso que torna as histórias tão fascinantes, pois são como as pessoas: têm tanto de idêntico como de distinto. 

A propósito, eis um magnífico garrafão de azeite:40020.jpg

 

 

 

 

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